Pular para o conteúdo principal

Destaques

Amenta da discórdia

Asséde Paiva & Chat GPT Na antiga vila de Rosário, cercada por montes cobertos de neblina, havia um costume tão velho quanto a própria igreja: após a celebração do Dia de Finados, os paroquianos ofereciam ao padre uma pequena amenta — contribuição em dinheiro e mantimentos — como sinal de gratidão pelas missas rezadas e celebrações em favor das almas dos falecidos. Durante décadas, o costume jamais fora esquecido. Mas naquele ano, por descuido, avareza ou simples distração coletiva, ninguém se lembrou da amenta devida ao padre Arruda. Isso foi lamentável... A missa dos Finados fora longa e solene. O sacerdote mencionara centenas de nomes, alguns já apagados da memória dos próprios descendentes. O cemitério era do tempo da escravidão. O padre Arruda rezara com fervor, depois, acompanhado pelos paroquianos fora ao campo santo e aspergira água benta sobre as sepulturas, enquanto caminhara sob um sol inclemente. Ao regressar à sacristia, retirou os paramentos e aguardou a amenta. Esper...

O APAGADOR DE SONHOS

 O APAGADOR DE SONHOS

Asséde Paiva 17/5/2023

Xaphan, o foguista do inferno

Xaphan, o foguista do inferno


Lúcifer, o portador da luz estava enfadado: o inferno estava degradado, as fornalhas estavam a esfriar por falta de carvão e falha do foguista; tridentes enferrujavam; as almas danadas faziam greve; as mulheres do diabo o passavam para trás, com os homens da Terra; íncubos e súcubos dormiam no serviço de turno; nada de atanazar os povos da crosta terrestre. Parecia que o inferno estava fechando as portas, por incompetência da corja de demônios. Daí, Lúcifer resolveu fazer um seminário; não, melhor seria uma reunião de trabalho workshop e convocou seus auxiliares para expor o dilema: Fechar o inferno ou trabalhar na perdição humana.

Depois de muitos debates, avanços e retrocessos, acusações e contraditórios, Belzebu, (Primeiro-Ministro do Inferno), aprovou uma suspensão por três dias infernais, de Xaphan, o foguista mandrião e, sugeriu um apagão mental geral dos terráqueos. Foi determinado que Alastor executaria a decisão: castigar os homens, sem precisar detonar uma bomba atômica.

Alastor (1) era o demônio que tinha o dom de invadir os sonhos e apagar todos. Ninguém duvidava que a Entidade do Mal faria um bom serviço, e promoveria imenso estrago na humanidade.

À medida que Alastor agia e, apagava os sonhos, as gentes iam se desmotivando, perdiam a capacidade de planejar, criar e executar coisas novas e, a vida se tornava um vácuo, sem sentido maior. Todos caminhavam como zumbis, sem vontade de fazer algo que fosse.

Os governos tomavam medidas extremas para combater a ameaça da inércia absoluta, mas nada parecia funcionar. Cientistas estudaram os estragos da Entidade, mas ela parecia ser imune a todas as tentativas de neutralização. Até as religiões entraram em pânico, pois não havia santos, arcanjos e deuses que vencessem Alastor.

Alguns deambulavam em zigue-zague, sem destino; afinal, não pensavam em nada e quando topavam um com outro diziam: 

–– Como vai? 

O outro respondia: 

–– Não sei!

–– Que vai fazer hoje?

–– Andar por aí...

–– Que horas são?

–– Sei lá!

E os indivíduos nem cuidavam da higiene, gente que, não tomava banho, tudo que faziam era satisfazer as necessidades fisiológicas e, às vezes, nas próprias vestes. Muita sujeira no Planeta Azul. Para que limpar o lixo? As relações sexuais se davam no momento que se viam e se abraçavam. Se uniam em pura manifestação genésica de testosterona e de progesterona; cumpriam o mandamento: Crescei e multiplicai-vos. Nada de amor: Para amar precisavam pensar em ficar juntos, trabalhar, casar, construir um lar...  E, logo após o sexo, se separavam sem qualquer pejo ou sentimento maior. Não laboravam nada, não consertavam nada, não sentiam necessidades. Zumbis, eles eram como. Também, a fome grassou, porque ninguém planejava, semeava e colhia. O mundo em dissolução. Ninguém estudava, porque não havia intenção de vida melhor: Ser médico! engenheiro! advogado! contador! Para que? E morriam aos montes, sequer pensavam em viver... Pensar pra quê? Era o moto. Grande parte das almas ia para o Averno, que já estava com lotação quase esgotada.

Então, um grupo que morava numa bolha de cristal indevassável, de teste de sobrevivência, decidiu enfrentar Alastor frente a frente. Se reunia secretamente e desenvolveram um plano ousado para invadir o mundo dos sonhos e confrontar a Entidade maléfica. Sabiam que essa seria uma tarefa difícil, não impossível, mas sentiam que era a única chance de salvar o gênero humano da paralisia total.

A equipe invadiu os sonos mais profundos, sem sonhos e pesadelos e encontrou Alastor, que parecia estar esperando por eles. A Entidade não tinha nenhuma forma definida, mas parecia uma nuvem escura e densa, que se movia rapidamente pelo espaço onírico, dominando os cérebros disponíveis. Os invasores estavam determinados. Com ajuda do Divino Pai, adentraram na arena cerebral e, lá, o Adversário assistindo o aquelarre (2).

A batalha foi longa e intensa, tudo parecia perdido. Passes magnéticos não funcionaram, por terem energias conflitantes. Uriel, um combatente, disse a fórmula cabalística de exorcismo: vade retro satana, enquanto aspergia água-benta sobre a Entidade do Mal, que deu um berro medonho, cresceu, cresceu e se dissipou como nevoeiro. Retornando à base, o inferno, Alastor foi espinafrado por Lúcifer, que estava furioso com a derrota. Rebaixou Alastor para auxiliar de Xaphan, o carvoeiro-mor. Mestre Lúcifer resolveu mudar de estratégia e mandou sua quarta mulher: Naema, a mais bonita, garbosa, tinhosa e tinha os chifres dissimulados, juro! Olhos como dois carvões em brasa. Ela se vingaria da derrota do chefe dos infernos. Naema agiu bem e infernizou todos consortes terráqueos, mas, como eram um ou mais de cada vez (marido e amantes), o estrago era aceitável entre os homens. Ela não só os traía, como induzia as mulheres a segui-la... e os homens pecavam alegres.... e o inferno estava com superlotação de almas penadas.

Enquanto isto, os sonhos bons tomaram lugar dos maus. A raça humana finalmente se libertou da paralisia, e voltou a ter esperança e motivação para viver. A partir desse dia, Alastor ficou definitivo e conhecido como o executor das ordens infernais e, grande ameaça de fim do mundo. Mas, também, possibilitou um iluminamento, no sentido amplo, marco, símbolo de coragem e de perseverança do povo, pois graças aos esforços dos homens, foi possível voltar a sonhar.


Notas:

(1) - Uma das representações mais comuns de Alastor é a de um demônio sombrio com asas negras e chifres, carregando uma espada flamejante e um chicote de fogo. Frequentemente retratado como uma figura imponente e aterrorizante, com uma expressão sinistra e cruel.

(2) - Aquelarre é um termo procedente do basco Akelarre ("aker" = bode; "larre" = campo), que pode referir-se a: o Akelarre, reunião de bruxas.


ALGUMAS NOTAS SOBRE O INFERNO: Sinônimos: Tártaro, Scheol (Xeol), Gheena, Hades, Ades, Averno, Báratro, Érebo, Pluto, Orco, Dite, Areias gordas, Forjas de Pedro Botelho. Capital: Pandemônio

Lúcifer é o supremo mandatário, o rei. Esposas: Naema, Lilith, Moclat, Prosérpina

Principais ajudantes: Belzebu = primeiro-ministro / Baalberith = secretário,

Astaroth = grão-duque, / Xaphan = foguista

Satanáquia e Aglariet =  grão-generais

Leonardo = presidente dos sabás / Fleurity = tenente-general

Leviatã = chefe dos pântanos / Sargatana = brigadeiro

Adramelech = grande chanceler / Nesbiros = marechal de campo

Alastor é o executor das decisões infernais / Verdelet = mestre de cerimônias

Mulciber = arquiteto / Prosérpina = arquidiaba (Concubina Chefe)


Comentários

Postar um comentário

Mais lidas