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ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM

  ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM Asséde Paiva Recordar é viver Relembrando meu colega e amigo Tércio de Castro Rocha (um granberyense) Até as pedras... Diz o velho ditado que até as pedras se encontram. Amigos e amigas, o que vou relatar tem alguma similaridade com esse provérbio. Tenho em mãos uma fotografia do dia de casamento de Amélia e Riquito, em Paula Lima, nos idos 1948 (foto1). Aparecem nesta foto além de noivos e padrinhos, eu Asséde Paiva, então com 14 para 15 anos (I); meu irmão, ao lado (II); e em baixo, de branco, em posição de sentido, Tércio de Castro Rocha (III). Nossos caminhos (o meu e de Tércio) cruzaram-se diversas vezes e em outras foram paralelos; e, isto de certa forma, valida o ditado “Até as pedras...” Pois bem, em 1946 eu fiz o quarto ano primário no grupo escolar Antônio Carlos, em Mariano Procópio, em Juiz de fora. Nesta época, Tércio estava lá também. Não nos conhecíamos, mas nossos caminhos se cruzaram nas horas do recreio. Depois, fui fazer o quinto ano ...

Fome

FOME

Conto de Asséde Paiva


"A fome é a forma mais urgente de injustiça." — Jean Ziegler

Volta Redonda, junho de 2025

Homem com fome
Jairo acordou muito cedo. Na verdade, mal dormira. Pesadelo — as palavras do filho ainda ecoavam como faca:

— Pai, ‘tô com fome...

Lá fora, as estrelas cintilavam no céu duro de frio. Atravessou a vereda, escorregou perto da pirambeira, mas agarrou-se a um ramo de erva-cidreira e escapou da queda. 

Pobre Jairo: homem sem eira nem beira, seguia ao arraial em busca de serviço. Talvez alguém precisasse de um quintal limpo. Talvez... nada. Quem sabe, com sorte, o fazendeiro mandachuva do pedaço, seu José T***, tivesse algum bico, uma capina no milharal.

Enquanto andava, tirou da bainha a quicé e, do bolso da calça esgarçada, um toco de fumo de rolo. Andava devagar, com cuidado, picando o fumo com dedos duros. Sem dinheiro, sem café, com a mulher e o filho ainda dormindo no casebre. Saíra sem fazer barulho. Não sabia como voltaria — ou se voltaria — com algo para comer.



Eles estavam magros de fome, dormindo e sonhando com comida quente. Jairo quis enganar o estômago: pegou uma palha de milho da camisa e enrolou um cigarro. A fumaça talvez enchesse o vazio.

Depois de andar dois ou três quilômetros, passou ao largo da fazenda Boa Vista. Sabia que lá fabricavam queijos, principalmente o tipo prato. Só de lembrar, sua boca se encheu de saliva. A fome apertou. É triste a barriga vazia.


Foi a uma moita de bambu. Com a quicé, cortou uma vara firme. “Pra espantar cachorro”, pensou.

Desceu a cava que o levaria à queijaria. Nenhum latido. Estava com sorte de bom ladrão ou ladrão ocasional. Hesitou: “E se o queijeiro estivesse acordado”?

A fome gritou mais alto. Jogaria com a sorte — ou contra o azar. Seu José T*** era valente, já matara um ou dois. Mas a fome...

Testou uma janela: fechada. Outra, também fechada. A terceira abriu, rangendo os gonzos.

Escorregou silenciosamente, como sombra. 

No lusco-fusco, um brilho. Um estampido.

A bala atravessou-lhe o peito. O proprietário, insone, dera chumbo à fome de Jairo.



Sua mulher e o filho esperavam. Até quando? Com fome...

O tiro calou a madrugada. A fazenda silenciou, como se a noite tivesse engolido o grito que não saiu. Jairo tombou sobre o chão frio da queijeira, entre tábuas mofadas e o cheiro ácido dos queijos. O cigarro, mal enrolado, ainda estava atrás da orelha.

O sangue escorria grosso, escuro, como a esperança morta dos pobres.

Seu José T*** ficou parado, rifle ainda em punho. O dedo trêmulo. Aproximou-se, viu o rosto pálido e murmurou algo como:

— Desgraçado...

Mas já não havia raiva. Apenas medo do processo, e o cansaço de quem sabe que o mundo está podre desde a raiz.

Lá, no casebre da madeira, Ana, mulher de Jairo, acordou assustada e sobressaltada. Não soube o porquê. Apertou o filho contra o peito. Sentiu a ausência do marido como se o vento lhe arrancasse algo das entranhas.

Levantou-se, esquentou água. Não havia o que pôr na panela, mas a chama dava ilusão de presença e espantava fantasmas.

— Ele volta, sim — disse ao menino sonolento. Mas a voz saiu mais como reza do que certeza.

O corpo de Jairo foi deixado na beira do caminho, embrulhado num saco de estopa, como trapo velho. Seu José T*** não quis polícia, nem conversa. Chamou o capataz e os peões:

— “Some” com o corpo. Era ladrão. Acabou.

Mas não acabara.

A notícia correu. Na vila, murmuravam. Alguns diziam bem feito: não se entra em casa alheia pela madrugada e pela janela. Outros, mais silenciosos, sabiam da fome. Sabiam da panela vazia. Um ou outro chorou calado.

Jairo foi enterrado envolto num lençol. Não havia como comprar um caixão, a miséria era dele e do povoado.

Dias depois, Ana subiu ao arraial. Pés inchados, o filho pela mão. Bateu à porta da igreja. Pediu ao padre para oficiar a missa de sétimo dia e, não podia pagar a amenta. Não tinha dinheiro. nem comida. Só vergonha — e orgulho ferido.

— Ele não era ladrão, padre Arruda... Era só um pai faminto.

O padre suspirou fundo. Olhou para o céu, buscando resposta. Mas ali só havia o espelho de nossas impiedades.

Domingo, depois da missa, visitaram a cova rasa do indigitado, no alto do morro. O povo foi, silencioso, como se soubesse que o morto era espelho de todos.

E, na mesma noite, um menino de onze anos, magro feito vara de pescar, surrupiou um varal de roscas e dois pães da venda de seu Agenor.

Fugiu correndo pela estrada de terra, com o estômago doendo de medo... e de fome.




FINIS


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