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ABIGEATO FATÍDICO

  ABIGEATO FATÍDICO Asséde Paiva & Chat GPT Naquela época, as fazendas da região de Paula Lima e adjacências ainda guardavam sombras antigas e lendas urbanas. O gado pastava livre pelos morros, pastos e vargens. Os homens trancavam as portas cedo, não por medo de ladrões comuns, mas por causa das histórias que corriam de boca em boca. Diziam que vacas desapareciam sem deixar rastros, e que os abigeatários acabavam encontrando um destino pior que a prisão. Muitos diziam que já caminhavam para o inferno antes mesmo de morrer. Fazendeiros passaram noites em vigília, com armas na mão, à espera dos ladrões, nas eles pareciam adivinhar e roubavam noutro lugar. Eram espertos e tinham informantes tão desonestos quanto eles. Às vezes, os bandidos abatiam e descarnavam os animais no local. No dia seguinte, o dono só encontrava a carcaça, sangue e vísceras. Foi numa noite sem lua que Geraldo e Nicanor, notórios ladrões de gado na região (Zona da Mata), resolveram roubar uma rês branca per...

UM PORQUINHO FELIZ... ATÉ CERTO PONTO

 UM PORQUINHO FELIZ... ATÉ CERTO PONTO

Asséde Paiva




Nasci numa tarde chuvosa e úmida, na fazenda São Mateus. Minha mãe bufava, ou rouquejava, e nós, saindo um a um, rolando ao chão. Finalmente, éramos oito irmãos e quatro irmãs, ao todo doze, qué-qué-qué. Que ninhada! Para minha desdita, fui o filhotinho mais fraquinho. Os outros logo, logo se desvencilharam dos invólucros protetores, arrebentaram o cordão umbilical e mamavam nas tetas recheadas de colostro: hum-hum-hum! Demorei um pouco a me libertar e corri com perninhas bambas para sugar leite quentinho, mas... eu fui empurrado, pisado e expulso. Escorreguei por cima dos outros, fui parar longe. Voltei, tentei, tentei e consegui, mas quase nada sobrou para mim. Ah, que gostoso o leite da mamãe! Depois, veio a noite, fiquei no cantinho mais frio entre pernas de mamãe, e meus irmãos, aninhados na sua quente barriga. Em poucos dias, todos cresceram, menos eu, miúdo, excluído. Aí, apareceu a Cinco Dedos. Magra e bela. Senti que era boa de coração. Ela sorriu para mim, curvou-se sobre a cerca que dividia nosso mundo, me pegou no colo, criticou minha fraqueza e elogiou meu focinho numa língua desconhecida, que entendi pela doçura: 

– Coitadinho, tão pequenino. E me arrastou para longe, me aquecendo, murmurando palavras meigas: “mãê, eu vou cuidar dele, me dá um leite aí, mãe”! 

A mãe dela trouxe uma mamadeira de leite igual a teta de minha mãe “porca”. Estava quentinho: é-um-é um-éum! É meu jeito de mostrar satisfação, Mamei tudo.

Tempo vai, tempo vem... Chuva miúda não mata ninguém... Dias e noites, muitas luas se passaram. Aprendi a linguagem dos homens. Eu fico sempre ao lado de minha dona, que me adotou para tudo: no trabalho, na folga, nas brincadeiras, até na hora de dormir. No princípio, eu dormia ao seu lado, mais tarde, ficava aos seus pés na mesma cama e, quando engordei, roncava num colchão de palhas de milho, ao chão e ao lado da cama de Cinco Dedos. 

Eu comia fubá molhado, insetos, cascas de frutas, milho moído e, principalmente muito leite na gamela rachada. Que bom! Estranhava que minha dona cobrisse a pele com uma segunda pele a que chamava vestido. Não me dou bem com isso; é estranho: meu pelo liso, amarelinho, com pintas brancas, me basta. Minha dona costuma me dar soro de queijo no coité. Gosto de repousar meu queixo na perna dela, e gosto das cócegas no meu pescoço e barriga. Vez por outra, dou fugida ao local dos meus irmãos, onde me chafurdo gostosamente no lamaçal. Minha amiga me pega e me chama “Porco”. Ela não entende que sinto muito calor e que preciso da lama pra me refrescar. Ah, que delícia quando ela me joga água!

Maria me imita, grunhe e corremos pelos quartos: Eu dou oinc-oinc-oinc, e ela gritando: ai-ai-ai, a onça vai te pegar! E, me pegando pelas pernas, me levanta, aconchegando-me ao colo. Vida boa... Fico feliz ao ouvi-la tocar viola.

Depois de brincar a valer, eu vou me deitar numa poça de barro, na beira do córrego, no jabuticabal. Maria detesta meu comportamento de enlamear. Afinal, sou um dos animais mais inteligentes: entendo tudo que dizem. Quando deito na lama fresquinha, ela vem correndo e grita: “Porco”! Apelido chato, desagradável, sim. Sou asseado e preciso de um lugar para fazer meu cocô. Maria, então, me leva para o banheiro, tira os bichos de meus dedos e voltamos a correr, a brincar pelo terreiro e pomar. No curral, certa feita, uma vaca me deu uma patada que resvalou pelo meu rabo e cortou um pedacinho. Perdi o lacinho do rabo e fiquei cotoco. Agora, sou Lé Cotoco. Um dia, fui mexer numa corda que não era corda: era cobra. Felizmente, ela picou na minha unha e nada sofri. Acho as minhocas saborosas, eu como de tudo: cascas, frutos, raízes, cana, pequenos animais, restos de comida, capim e outras. Que pena, minha dona não pode fuçar como eu! Seu nariz é fraco. 

Vieram dois homens mal-encarados, me seguraram, abriram um canivete e me cortaram lá atrás. Que dor horrível, desesperadora! Guinchei, lutei, chorei, mas me imobilizaram com um joelho posto na minha cara, enquanto o ajudante arrancava minhas bolinhas e as jogava para os cachorros. 

Eu não gosto de ser chamado “porco” pareço demais com os humanos.  Minha cara é diferente, é mais bonita. Eu me espojo na lama porque sinto calor, preciso me refrescar assim; em compensação, minha dona tem os pés gelados e me chama para esquentá-los, enquanto costura. Para isso, sirvo. Ela me ama, sei disso.

Cresci, estou pesado, engordei a olhos vistos, sempre atendendo ao chamado de “meu Lé”. Tenho dificuldade em subir a rampa da cozinha. O pai de Maria disse: 

– É hora de mandá-lo pro açougue, tá no ponto.

De repente, ouvi o chorocar do macuco na mata: fuóó. Meu coração disparou.

Maria me chamou e eu atendi. Ajudaram-me subir a escada de pedra. Meu peso beirava dezoito arrobas... Atravessei o corredor até à entrada principal da casa. Ouvi o chio do carro de boi e o aboio do carreiro: ôa- ôa-ôa ô-ôa, e depois, o silêncio. 

O carro de boi recostado no último degrau de pedra esperava por mim. Maria entrou nele para me inspirar confiança. Acompanhei-a... Ela pulou da esteira para o cabeçalho, atrás de mim, o candeeiro fechou a traseira do carro, e fiquei preso e só. 

–– Vamo, eh, eixe, ei! Incitou o carreiro, e os bois, em sincronia, partiram da fazenda ao açougue. Eu ignorava o destino cruel reservado para mim: oinc-oinc... oinc.

No brejo, a saracura se acusava: quebrei três-potes e um coco e um coco. Estava piando por mim.

Comentários

  1. Cil! Gostei da ilustração. Da história sou suspeito como autor. Mas ela foi muito elogiada

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