O SICOFANTA
O SICOFANTA Asséde Paiva & Chat GPT O Sicofanta da Rua Direita, na velha cidade de São Sebastião do Alto das Lages — dessas que vivem mais de cochichos do que de fatos — morava Anselmo Bragança, homem de fala doce, sorriso servil e espinha elástica. Não tinha ofício definido, mas ocupava todos os espaços. Chamavam-no, à boca pequena, de sicofanta, um mentiroso de alto coturno. Anselmo não discordava de ninguém; discordava apenas dos ausentes e criava eventos impossíveis. Era homem do tititi. Na presença do prefeito, citava trechos de O Príncipe, de Maquiavel, como se fossem motos e anexins da avó: — Governar é uma arte para poucos, excelência! — dizia, inclinando o corpo num ângulo que beirava o impossível. Ele um puxa-saco inveterado. Diante do padre, tornava-se místico, quase um personagem de Os Irmãos Karamazov, com olhos marejados e voz contrita: — A alma humana é um abismo. Só a graça nos sustenta. Já na mesa do juiz, citava Ulpiano e Papiniano com uma desenvoltura que ...