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O SENHOR DECESSO

— Alô, Frazão, há produção hoje? — Ainda não. Aguarde, se aparecer alguma coisa, aviso. — Você precisa me “ajudar” mais. O movimento anda fraco... Houve um breve silêncio. — Faça o seguinte: vá direto ao escritório da ala nova. Sua “encomenda” de sempre está lá. — Entendido. A conversa parecia banal, apenas para quem desconhecia o verdadeiro significado das palavras produção e encomenda. De um lado da linha estava o proprietário da funerária Pax Æternum; do outro, Frazão, maqueiro de um grande hospital, da antiga capital do Brasil. A mercadoria negociada não tinha voz, nem podia reclamar do preço: era cadáver. Frazão era querido por todos. Ninguém sabia que ele era “corretor” de funerária. Homem robusto, cordial, pai dedicado, nunca chegava em casa sem levar pão fresco para os filhos. No Natal, fazia questão de distribuir presentes. Religioso, caminhava pelos corredores com uma Bíblia debaixo do braço. De vez em quando, recitava um salmo para os mais debilitados e necessitados de apoio...

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