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O DEVORADOR DE PALAVRAS

 O DEVORADOR DE PALAVRAS





Asséde Paiva & ChatGPT

O escritor morava sozinho numa velha casa onde o silêncio parecia ter criado raízes. Era conhecido pelos contos de terror que escrevia, mas poucos sabiam que, nos últimos meses, o medo deixara de ser ficção para tornar-se seu único companheiro.
Tudo começou numa madrugada.
Ao terminar uma página inteira, percebeu que uma palavra desaparecera.
Pensou ter cometido um erro de revisão. Reescreveu-a.
Enquanto observava, a palavra sumiu novamente.
A folha permaneceu intacta, como se ela jamais tivesse existido.
Sorriu, nervoso.
— Bug do computador...
No dia seguinte aconteceu outra vez. Primeiro uma letra. Depois duas. Em seguida, frases inteiras.
Tentou escrever à mão.
As letras também desapareciam.
Era como se alguma coisa as mastigasse no exato instante em que nasciam.
Consultou técnicos em informática.
Trocaram computador, teclado, programas e sistema operacional.
Nada.
Comprou cadernos novos, canetas diferentes, lápis importados.
As palavras continuavam sendo devoradas.
Ninguém acreditou quando afirmou que um vírus aprendera a comer letras.
Não um vírus de computador.
Um vírus da linguagem.
Passou então a vigiar a folha.
Durante horas permaneceu imóvel, esperando flagrar o criminoso.
Numa noite chuvosa conseguiu.
Entre uma palavra e outra surgiu uma pequena sombra escura.
Não era maior que um acento circunflexo.
Movia-se rapidamente, engolia uma letra e desaparecia.
Quando voltava, já estava maior.
Quanto mais escrevia, mais o ser crescia.
Logo media o tamanho exagerado de uma vírgula barriguda.
Depois um ponto do tamanho da esfera de Magdeburg.
A seguir, um ponto e vírgula. Este, sim um gigante.
O ponto final era imenso como a roda de um vagão.
A criatura alimentava-se exclusivamente de linguagem. Antes das letras, comia os sinais sintáticos e, a seguir, os léxicos.
Tinha predileção por números.
Certa feita, roeu todas as vogais de uma enciclopédia em menos de um mês.
Não saciado, comeu as consoantes dos profetas da Bíblia. De certa forma, salvou a humanidade ao devorar o capítulo do Armagedon.
As autoridades médicas chamaram aquilo de surto psicótico.
Receitaram remédios e lavagem intestinal.
Enfiaram-no na camisa de força.
Mas ele continuava escrevendo.
E continuava vendo.
Nas paredes do quarto branco do hospital, centenas de letras invisíveis e sinais eram devoradas por milhares de pequenos parasitas negros.
Os médicos diziam que não havia parede escrita.
Ele respondia:
— Vocês chegam tarde demais. Eles limpam tudo antes que vocês entrem.
Com o tempo, deixou de escrever histórias.
Escrevia apenas listas de palavras, tentando descobrir quais demoravam mais para ser comidas.
"Asa."
Desaparecia em poucos segundos.
"Esperança."
Durava quase um minuto.
"Eternidade."
Era devorada letra por letra, lentamente, como se tivesse sabor especial.
Anticonstitucionalissimamente, durava um dia.
Os cadernos permaneciam vazios.
Mesmo assim, ele os enchia diariamente, com caracteres invisíveis para os enfermeiros.
Certa manhã, encontraram-no rindo diante de uma página completamente em branco.
— Finalmente! — repetia:
— O vírus morreu? O vírus morreu? O vírus morreu?
–– Como assim! perguntou um enfermeiro.
 ––Acabou a comida.
Naquela mesma noite, o “escritor” perdeu a fala.
Os médicos atribuíram o silêncio ao agravamento da doença.
Entretanto, dentro de sua cabeça, uma multidão de pequenos seres negros caminhava entre as lembranças, arrancando sílabas remanescentes da memória.
Primeiro esqueceu o nome da rua.
Depois o nome da mãe.
Depois o próprio nome.
Por fim, esqueceu o significado das palavras.
Quando isso aconteceu, as criaturas começaram a morrer de fome.
Na manhã seguinte, foi encontrado morto.
Ao seu lado havia apenas uma folha em branco.
O diretor do hospital recolheu o papel.
Jurou ter visto surgir, por um breve instante, no papel, uma palavra escrita no centro da página:

FOME
Antes que pudesse lê-la novamente, a palavra desapareceu. O diretor olhou para a máquina de escrever, que permanecia sobre a mesa. Ninguém a havia tocado. Mesmo assim, as letras continuavam nítidas, imóveis, sobias. Então, compreendeu: o vírus não estava apenas devorando palavras. Estava aprendendo a escrevê-las.
Havia, sim, loucos no hospital.

Cuidado com folha em branco:
Nem todo silêncio é paz.
Às vezes, quem nela escreve,
Não é homem. É algo mais.

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