O Homem que viveu e morreu sem Amor
O Homem que viveu e morreu sem Amor não é apenas a história de um ser violento. É a história de alguém que desperdiçou a única riqueza capaz de sobreviver ao tempo: o afeto. Os bens desaparecem, a força se extingue, os companheiros de farra se dispersam. Somente o amor, quando cultivado, permanece vivo na memória dos que ficam.
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M*** era de poucas palavras. Dentro de casa, o silêncio era sua forma de conversar. Não havia histórias ao redor da mesa, nem conselhos, nem gestos de carinho. Os filhos cresceram aprendendo que sua presença inspirava mais receio do que afeto. Era um homem mau ou apenas um homem consumido pelo egoísmo?
A esposa foi a que mais sofreu. Casou-se esperando encontrar um companheiro e parceiro, mas encontrou um incapaz de demonstrar ternura. Ela carregou o peso da casa, criou os filhos, educou-os e suportou humilhações, que hoje parecem impossíveis de aceitar. Sua vida foi uma longa sucessão de renúncias.
Houve um dia que jamais saiu da memória da família. Tomado pela ira, ele, muito forte, agarrou a mulher pelo pescoço e a esganou. Sobreviveu, sim, mas algo dentro dela morreu naquele instante. Não houve mais sonhos. Continuou vivendo porque não tinha escolha. As mulheres suportam o insuportável para manter a família unida.
Os filhos cresceram sem aprender com o pai o significado do abraço ou da palavra amiga. O respeito existia, mas era um respeito nascido do medo. Amor não se impõe; cultiva-se. E, quando não é cultivado, transforma-se em gelo ou em distância abismal.
Perdeu ou gastou os bens que possuía. Foi perdulário. As oportunidades desapareceram. Restou-lhe depender dos filhos, que acolheram o pai grosseiro por dever de consciência, não porque tivessem recebido dele o mesmo cuidado na infância. Viveu os últimos anos sendo cuidado por quem pouco amparara.
Dizia possuir inúmeros amigos, talvez acreditasse nisso. Talvez confundisse conhecidos como companheiros confiáveis. Na verdade, nunca foram presentes. Quando a senilidade chegou, a artrose e a artrite limitaram seus passos e a solidão se instalou na casa.
A velhice costuma suavizar alguns homens. Há quem descubra a humildade quando os cabelos embranquecem. Há quem peça desculpas. Há quem tente reparar danos antigos. Não foi o caso.
Na casa só ele tinha voz; os filhos e esposa permaneciam sempre quietos, temerosos de alguma violência.
A pessoa pode ser cercada de gente e, ainda assim, morrer sozinha. A solidão não se mede pela quantidade de visitas, mas pela ausência de vínculos construídos ao longo da vida.
Não escrevo para condenar. Não sou juiz de moral ou dos bons costumes. O tempo faz o julgamento. Registro isso porque essa foi uma história vivida, e famílias, mundo afora, sofreram dramas semelhantes, escondidos entre as quatro paredes.
O bem mais importante não é a casa, a terra ou o dinheiro; é o amor que plantamos nas pessoas. Quem deseja respeito, precisa primeiro respeitar. Quem oferece carinho, dificilmente envelhece abandonado.
Em surto de fúria, certo dia, o homem quase matou a mulher. Ela conservou a dignidade que a brutalidade não conseguiu destruir. Ensinou aos filhos, sem discursos, que a verdadeira força pode morar na paciência, na resiliência e na capacidade de continuar vivendo, apesar das feridas no corpo e na alma.
Ele conviveu dia a dia com a esposa e os filhos, como quem suporta um peso incrível e inevitável. Conversa, carinho, abraço, elogio — nada disso fazia parte de sua natureza. Na rua, procurava encontros casuais.
Vivia atrás de aventuras: “Burro velho gosta de capim novo”. Carne nova era mais importante que a fidelidade. Também apreciava as noites compridas, nas quais o dito e combinado não valiam no dia seguinte. Tudo regado ao conhaque ou cachaça com Fernet. Entre os alterocopistas, fazia questão de parecer valente. Falava alto, enfrentava quem julgasse necessário e alimentava a fama de homem que não levava desaforo para casa. O revólver na cintura confirmava que ele não estava falando ao vento. Jogador inveterado, perdeu parte do patrimônio na roleta, na víspora, na bisca de rela e no marimbo.
Ah, como as aparências enganam! Parecia homem de bem... parecia...
Considerava-se sagacíssimo. Repetia, cheio de empáfia, que ninguém seria capaz de enganá-lo. A verdade era outra.
Certa vez, recebeu vinte contos de réis para depositar num banco da cidade grande. Antes de cumprir a obrigação, entrou num bar conhecido dos fazendeiros, o Internacional, para tomar um cafezinho. Um sujeito de maus bofes, ladravaz acostumado a explorar incautos, aproximou-se. Envolvente, conversa vai, conversa vem, gabou-lhe o charme e a inteligência, comentou sobre um negócio imperdível e, em pouco tempo, convenceu-o a trocar seu maço de vinte contos por uma máquina de fazer dinheiro. Deu exemplo: inseriu papel em branco na engenhoca; após um simples giro da manivela, ela emitiu uma nota de mil cruzeiros. Negócio feito na hora. Em casa, ele tentou repetir a operação: introduziu o papel, girou a manivela e esperou o milagre. O papel saiu como entrou. Caíra no velho conto da "Guitarra". João-bobo! Enganado da maneira mais simplória. O homem que dizia não haver nascido quem pudesse lográ-lo, fora ludibriado num golpe banal. Era menos sagaz do que parecia; na verdade, um ingênuo segundo o anexim: Cacunda de trouxa é degrau dos espertos.
A valentia que ostentava um dia cobrou seu preço. Brigou com um policial militar por um rabo de saia e acabou recebendo cinco tiros de um revólver Smith & Wesson, calibre .45. Escapou da tentativa de assassinato; as sequelas, porém, nunca desapareceram. Ficou manquitola pelo resto da vida. Mesmo assim, não mudou de vida nem de temperamento. “Pau que nasce torto, morre torto”.
Para aquele indivíduo, a família era um estorvo. Ela nunca ocupou o primeiro lugar. As responsabilidades do provedor eram ignoradas, ele agia como ser solteiro.
Na contabilidade da vida, débitos e créditos são zerados. Colhe-se sempre aquilo que se semeia. A lição bíblica é cristalina: “A semeadura é livre; a colheita, obrigatória”. A maior riqueza que uma pessoa pode deixar não é a casa, a terra ou o dinheiro, mas o amor da família e do próximo. O homem, cercado de companheiros de copo, ficou só. Os colegas de farra desapareceram pouco e pouco, como sói acontecer quando acabam a juventude, o dinheiro ou a utilidade. Restaram-lhe apenas as filhas, que, apesar de tudo, não tiveram coragem de abandoná-lo. Em vez de ampará-las, ele tornou-se dependente delas, vivendo como parasita.
Ainda assim, gostava de repetir para uns e outros o já gasto chavão de que possuía “amigos”. Talvez acreditasse nisso. Talvez precisasse acreditar. Era uma forma de esconder de si mesmo a verdade que nunca teve coragem de enfrentar: amizade de ocasião não substitui a família. Amigos de ocasião são como aves de arribação: faz bom tempo, eles vêm; faz mau tempo, eles vão.
Morreu cercado por lembranças de bares, farras, conquistas e histórias que só faziam sentido para si. O homem que tantas vezes buscou aprovação fora de casa, terminou isolado e sem o que realmente importava: o amor. O respeito não nasce da força, da valentia, da cara de mau-humor ou da popularidade: nasce do cuidado, da presença e da ternura.
Seu maior fracasso não foi levar cinco tiros, perder bens ou depender dos filhos. Foi atravessar a existência sem aprender que seu clã nunca deveria ser menosprezado, mas o único lugar sagrado, onde o respeito e o amor podiam sobreviver ao tempo.
Quando se olha no retrovisor, vê-se que o ódio prolonga a prisão do passado. Nenhuma existência pode ser considerada se termina sem o bem-querer daqueles que caminharam lado a lado.
Viveu cercado de gente,
Mas caminhou sempre só;
Quem fecha a porta ao afeto
Colhe silêncio sem dó.

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