O HOMEM QUE DERRETEU
No Departamento de Estanhamento por imersão ninguém conversava mais do que o necessário. O rugido das bombas abafava qualquer palavra, e a névoa branca pairava continuamente sobre as cubas de ácido transformava homens em sombras amorfas. Quem entrava pela primeira vez, sentia que atravessava uma fronteira. A claridade desaparecia, o ar ardia nos pulmões e o cheiro acre do ácido impregnava a roupa, antes mesmo do primeiro passo. A luz do sol jamais penetrara no ambiente. As chapas de aço mergulhavam em enormes tanques de ácido clorídrico; entravam cobertas de ferrugem e, após sucessivos mergulhos, ficavam desoxidadas, brilhantes, escorregadias, prontas para o Estanhamento, no processo no processo de imersão à quente, o qual consistia no mergulho das chapas de aço, recortadas pela tesoura denominada Marta Rocha. Eram mergulhadas em estanho no ponto de fusão, e transformadas em folhas de flandres.
Existia uma história nunca registrada nos relatórios da empresa: A lenda do turno de revezamento. No Departamento de Estanhamento, um ajudante desaparecera em uma das cubas, no turno 0/8 (zero às oito). Procuraram durante dias. Nunca encontraram o corpo. Desde então, alguns afirmavam ser a névoa existente uma face do mal, não só vapores de ácido.
Os operadores trabalhavam protegidos por roupas impermeáveis, botas especiais, luvas grossas e máscaras com visor. Pareciam criaturas isoladas em escafandros, trabalhando no local hostil. Mesmo assim, o ácido encontrava meios de atacar. Parecia ter vida própria. Procurava uma fresta nas luvas, uma costura mal fechada, um visor mal encaixado. Não perdoava distrações. Causava doenças profissionais: feria corpos desprotegidos, sufocava os pulmões. Corroía corrimãos de ferro, consumia parafusos e enferrujava ferramentas esquecidas na área.
A névoa queimava a garganta de quem retirasse a máscara por segundos. Todos respeitavam aquelas cubas. A fumaça que saia delas intoxicava os trabalhadores. Os operários sobreviventes aposentavam-se após quinze anos de trabalho na empresa. O local era antessala do Averno, curiosamente, tinha o simpático nome de sombrinha. De fato, a máquina subia e descia no eixo principal afundando e levantando as folhas de aço, presas nas barbatanas.
Cláudio, o operador chefe...
Era antigo na Usina. Conhecia cada válvula, cada bomba, cada plataforma metálica. Gostava de repetir aos novatos:
— O ácido só mata quem tem medo dele.
Numa madrugada chuvosa de uma sexta-feira, 13, um sensor apresentou defeito. Era necessário destravar manualmente um carro transportador.
Cláudio dispensou ajuda. Sabia do perigo inerente à tarefa. Subiu sozinho na plataforma. Ele trabalhava naquele setor há mais de vinte anos. Dizia conhecer o humor das máquinas como quem conhece o temperamento de um velho cavalo. Bastava ouvir o ritmo das bombas para saber se alguma válvula começava a falhar.
Os mais antigos acreditavam que o ácido também tinha humor, mau-humor.
Permanecia quieto dias e dias, apenas fumegando. Então, fervilhava sem motivo aparente, formando redemoinhos sem ninguém conseguir explicar. Nessas ocasiões, os veteranos oravam discretamente e faziam o sinal da cruz antes de iniciar o turno.
Os engenheiros riam dessas superstições.
Os operadores, não.
Cláudio alcançou o carro transportador.
A plataforma vibrava sob seus pés.
A névoa era muito densa. Ele mal conseguia enxergar as próprias botas.
Curiosamente, naquele instante, todas as máquinas cessaram por dois ou três segundos. Um silêncio impossível tomou conta do setor.
Então, ouviu alguém chamá-lo.
— Cláudio...
Reconheceu imediatamente a voz.
Ernesto.
Ernesto morrera anos antes, esmagado por uma bobina de aço, de três toneladas.
Cláudio virou-se instintivamente. O piso metálico escorregou sob sua bota.
Houve apenas um grito curto.
Depois, o mergulho.
Ninguém viu exatamente o acontecimento. Alguns disseram ser pelo piso escorregadio. Outros juraram ter ouvido um grito, ou gemido. Houve quem afirmasse que ele simplesmente desapareceu na névoa ácida.
O nível do ácido começou a baixar devagar.
Primeiro apareceram fragmentos de metal corroído.
Ferramentas.
Um capacete deformado.
Finalmente surgiu o esqueleto que permanecia de pé, apoiado contra a parede da cuba, como se ainda esperasse o momento de subir.
Um dos bombeiros deixou cair a lanterna. Outro recusou-se a descer.
Os colegas paralisaram a operação, ensacaram os ossos.
Apenas um líquido semelhante ao de gordura quente escorria.
O cheiro tornou-se insuportável.
Alguns operários vomitaram dentro das próprias máscaras.
O ácido fervilhava nas outras cubas.
A viúva, no velório, pediu para o caixão permanecer fechado.
Mesmo assim, alguém jurou ter ouvido pequenas batidas vindas de dentro dele.
O padre interrompeu a homilia por um instante. Pareceu escutar alguma coisa, fez rapidamente o sinal da cruz, aspergiu água-benta e terminou as orações muito antes do costume. Nem quis receber espórtula.
O enterro ocorreu após liberação do corpo pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) e do órgão de medicina legal, após a apresentação do indispensável atestado de óbito.
A fábrica voltou ao ritmo habitual, como se nada tivesse acontecido. Outro operário ocupou a vaga, e a produção seguiu seu ritmo. Produzir é preciso...
Mas alguma coisa havia permanecido: os operadores começaram a ouvir passos metálicos durante o turno da madrugada: o zero às oito. Passos lentos, compassados, Sempre vindos da plataforma da cuba número quatro. A cuba do “acidente”.
As câmeras de segurança nada registravam.
O vigilante jurava que os passos cessavam no instante em que alguém se aproximava.
Depois vieram as vozes. Primeiro, um sussurro. Depois um chamado.
Sempre o mesmo.
— Ajuda... socorro!
Era um pedido agônico.
Os operadores pensavam ser brincadeira. Até um deles respondeu:
–– Vou olhar na cuba.
Ele viu um homem usando uniforme antiácido. Quando a figura ergueu o rosto, não havia carne. Somente um crânio úmido, brilhando sob as luzes difusas amareladas da usina. Dentro das órbitas vazias pulsava uma luminosidade esverdeada.
Os operadores começaram a sentir cheiro de ácido em lugares onde ele jamais existira.
Vestiários.
Refeitório.
Escritórios.
Alguns encontravam pequenas queimaduras nas mãos ao final do expediente, embora jamais tivessem retirado as luvas.
Outros diziam ouvir uma respiração ofegante atrás das máscaras.
Outro funcionário afirmou ter visto pegadas molhadas atravessando o piso. Não eram de botas. Eram pegadas deixadas por ossos: metatarsos, calcâneos, falanges. Como se um esqueleto recém-saído da cuba caminhasse desengonçadamente para o piso superior.
A administração não levou a sério e atribuiu tudo ao estresse.
Chamaram psicólogos, realizaram-se palestras, substituíram a iluminação. Instalaram novas câmeras. Nada mudou. Pelo contrário. As ocorrências aumentaram. Bombas desligavam sozinhas. Alarmes disparavam sem motivo. Sensores indicavam movimento sobre plataforma vazia.
Certa madrugada, o supervisor Renato resolveu permanecer escondido na sala de controle. Queria provar que tudo não passava de histeria coletiva.
Às duas horas e dezessete minutos, ouviu o primeiro passo. Depois outro. O som era seco. Como madeira batendo contra ferro. As câmeras mostravam apenas a cerração. Mas os microfones captavam claramente alguém caminhando.
Renato saiu. Percorreu a plataforma. Não havia ninguém.
Desceu para o nível das cubas. Quando passou diante da cuba número quatro, sentiu um frio impossível naquele ambiente. Olhou atentamente. Do líquido espesso surgiram bolhas. Centenas delas.
Então, uma mão esquelética rompeu a superfície. Outra surgiu logo depois. Em seguida apareceu um crânio. Sem músculos. Sem olhos.
Os ossos estavam limpos, reluzentes, como porcelana recém-polida.
A criatura saiu da cuba sem produzir respingos. O ácido escorria entre as costelas como água atravessando grades.
Ela caminhou em direção a Renato. Cada passo fazia ecoar um estalo de ossos. Parou a poucos centímetros dele.
O maxilar moveu-se, os dentes entrechocavam.
— Ainda dói...
Renato tentou correr. As pernas não obedeceram.
No dia seguinte, encontraram apenas seu capacete junto ao corrimão. O visor estava coberto por marcas de dedos, como se alguém tivesse tentado arrancá--lo por dentro.
As buscas foram imediatas. Drenaram novamente a cuba. Encontraram o esqueleto de Renato com seu relógio de pulso no punho ósseo.
A direção da usina interditou definitivamente a cuba número quatro.
Uma placa foi instalada sobre a plataforma:
CUBA 4 ESTÁ DESATIVADA.
Mesmo assim, os operadores mais antigos evitam olhar para ela durante a madrugada. Dizem quando a fumaça fica mais espessa, é possível distinguir dois esqueletos caminhando lado a lado entre os vapores, como antigos empregados que jamais receberam autorização para encerrar o turno. E toda sexta-feira, 13, exatamente às duas horas e dezessete minutos da madrugada, o sistema registra, sem falhar, o acionamento automático da ponte-rolante, tendo ou não lingada a transportar. Os mostradores voltam a funcionar e a fumaça a subir na cuba número 4.
Não existe operador na cabine da ponte-rolante. Nunca existe.
Mas as chapas continuam descendo em direção à velha cuba ácida, como se mãos invisíveis ainda obedecessem à rotina de uma fábrica, se recusa a esquecer seus mortos.
Os relatórios continuam registrando produção naquela cuba.
Todos os domingos, às duas horas e dezessete minutos, exatamente quarenta e oito chapas são mergulhadas no tanque.
Nenhuma delas existe no estoque.
Nenhuma entra na linha.
Nenhuma vai ao Estanhamento.
Mesmo assim, o sistema acusa rendimento perfeito.
Na Usina, alguns turnos simplesmente nunca terminam.

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