Destaques

MADRUGADA 4:35

 MADRUGADA 4:35


Asséde Paiva & ChatGPT



Cada qual no seu canto sofre seu tanto

O segredo para lutar e vencer na vida ou na guerra ou na tristeza está no começo de toda a vida, de todo ser. Lutar, lutar, sangrar, mas vencer, vencer e vencer. Às vezes perder, mas viver e viver lutando sempre, sobrevivendo. Desistir nunca! O futuro será sempre um novo recomeço. As adversidades da vida nos ensinarão que a cada luta virá o aperfeiçoamento para uma grande vitória. (Jorge de Lima).

“E disse Deus a Moisés: Eu sou o que sou.”

(Êxodo 3,14)

Se alguém me perguntar: Que és? Direi: não sei!

Eu queria pão e não podia comprar, hoje, posso comprar e não posso comer.

-----------------------------------------------

Às quatro e trinta e cinco da madrugada, o relógio fez mais barulho do que devia.

Não porque tivesse despertador. Era apenas o silêncio que aumentava o peso de cada segundo. O tic, toc era audível. Olhou para o relógio e compreendeu, antes mesmo de pensar, que o sono havia desistido dele.

A casa permanecia inerte e silenciosa. Nenhuma porta rangia. Nenhum carro arranhava o asfalto. Nem o vento parecia interessado naquela madrugada. Havia apenas um coração batendo, às vezes mais forte, às vezes hesitante, como quem pergunta ao próprio dono se ainda vale a pena continuar. E o coração parecia avisar que estava cansado de carregá-lo. Tum, tum, tum.

Virou-se para um lado. Depois para o outro.

Inútil tentativa.

Quando a noite resolve fazer perguntas, não há travesseiro que responda.

As lembranças chegaram sem pedir licença.

Primeiro vieram os pais:

Não os pais idealizados das fotografias antigas, mas os pais verdadeiros, tão desestruturados quanto o destino permitiu. Gente que fez o que pôde, errou o que não queria errar e deixou no filho cicatrizes que nem o tempo conseguiu apagar completamente. Recordou discussões, ausências, medos de menino e uma pobreza que não era apenas de dinheiro, mas também de tranquilidade.

Depois vieram as doenças. Cada uma entrou como se fosse dona da casa.

Uma lembrava um hospital. Outra lembrava exames. Outra lembrava o receio escondido atrás de um sorriso para não preocupar a família.

Por último, surgiu o coração. Não o dos poetas, mas o de músculos sujeito a falhas, exames, remédios e incertezas.

Escutou seu interior, seu peito: tum... tum... tum... Cada batida parecia fazer uma pergunta: "E se parar?"

Pensou na irmã.

Sabia que ela carregava um estresse que nenhuma palavra conseguia aliviar. Existem pessoas que continuam de pé apenas porque ainda não descobriram que já estão exaustas.

Sentiu vontade de ajudá-la. Também sentiu a impotência de quem percebe que há dores que ninguém consegue dividir.

Então fez o que os insones fazem melhor: começou a julgar a própria existência.

"Valeu a pena?" A pergunta ecoou dentro do quarto.

Recordou a juventude, a luta, o estudo, o trabalho.

Vieram, uma após outra as lembranças da grande Siderúrgica onde passara tantos anos: a poderosa CSN.

Nada lhe fora dado por compadrio ou injunções políticas.

Lembrou-se das responsabilidades recebidas, dos desafios vencidos, dos superiores que o admiravam, das homenagens inesperadas. Em certa ocasião, seu nome fora apresentado como exemplo digno de ser seguido.

Era fato, ademais foi considerado o mais eficiente Presidente de uma das empresas do Grupo.

Poucos trabalhadores recebem esse tipo de reconhecimento.

Mesmo assim, naquela madrugada, tudo isso parecia distante, como medalhas esquecidas numa gaveta.

Pensou nos colegas que já haviam partido.

Pensou em quantos aplausos duram menos que um minuto.

Pensou em quantos certificados amarelecem com o tempo.

E repetiu para si mesmo:

“Não sei se valeu a pena viver”.

A frase caiu no quarto como um copo de vidro.

Mas a madrugada, às vezes, sabe responder melhor do que o dia. Sem perceber, seus olhos foram até a estante.

Ali estavam livros.

Cadernos.
Papéis.
Centenas de páginas.
Histórias.
Contos.
Poemas.
Frases.
Recordou personagens que criara.
Homens simples.
Mulheres esquecidas.
Meninos da roça.
Velhos sitiantes.

Gente que existiria apenas porque ele lhes emprestara palavras.

Nenhum deles respondeu.

Mas todos pareciam olhá-lo em silêncio.

Foi então que compreendeu uma pequena coisa.

A vida talvez não seja medida pelos dias felizes.

Nem pelos prêmios.

Nem pelo salário.

Nem pelos títulos.

Talvez seja medida pelo que conseguimos deixar aceso quando a nossa própria luz começa a diminuir.

Olhou novamente para o relógio. Agora eram seis e trinta e cinco.

Cento e vinte minutos haviam escorridos pelos ponteiros do relógio.

Parecia muitos anos...

A janela clareava discretamente.

Não era ainda o sol.

Era apenas uma promessa de bela manhã.

Fechou os olhos outra vez.

Continuava sem saber se sua vida havia valido a pena.

Talvez essa pergunta jamais encontrasse resposta completa.

Mas havia uma certa humildade no ar.

Enquanto existir uma página em branco, Deus não encerrará a conversa com ele. E certas conversas são longas; atravessam a madrugada e continuam após muitas manhãs e muitos sóis.


Comentários

Mais lidas