OS BENGALINHAS
Ainda havia muita névoa deitada pelo chão quando Joaquim/Juca — a quem o povo chamava apenas de J. — levantou-se da cama de varas. Lavou o rosto emagrecido na água fria da bacia, alisou o queixo crestado e percebeu que a barba embranquecida crescera em remoinhos, como capim depois da geada.
Olhou-se no espelho rachado e tartamudeou:
— Preciso fazê essa barba... Tá feia demais...
Disse sem convicção. Havia muito tempo que já não fazia questão da aparência. Na idade em que chegara, o espelho servia mais para confirmar que ainda estava vivo. Sem perceber, afivelou a máscara da culpa....
Quem veste esta máscara esquece o próprio rosto.
A cozinha cheirava a café recém-coado. Bebeu-o amargo (detestava café com garapa), acompanhado apenas de um pedaço de broa endurecida. Depois apanhou a velha bengala de guatambu, companheira de muitos anos.
Saiu mascando fumo de rolo. Seria o dia da verdade.
A neblina escondia cercas, morros e árvores. Apenas as copas mais altas apareciam, como ilhas boiando num mar branco. O silêncio da manhã era quebrado pelo canto distante de um trinca-ferro e, pelo toc... toc... toc... da bengala batendo na estrada cheia de pedregulhos e terra socada por animais.
Juca caminhava devagar. Não tinha pressa. Quem envelhece aprende que o tempo anda mais depressa do que qualquer cristão.
Do outro lado da ponte de madeira já o esperava Zé das couves...
Também apoiado numa bengala.
Também vergado pelos anos.
Também envolvido pela névoa.
Talvez carregasse a máscara do mal.
Os dois se conheciam desde meninos. Haviam brincado descalços, pescaram lambaris, roubaram goiabas, trabalharam nas mesmas roças, em mutirão e casaram quase na mesma época. Enterraram mais amigos do que gostariam de lembrar.
Na redondeza ninguém mais dizia seus nomes.
Eram simplesmente...
Os Bengalinhas.
— Uai, demorô hoje...
— As pernas custaram a pegá no tranco, tão bambas como caniços à beira do rio.
Os dois riram e sentaram-se lado a lado num esteio de pau podre.
Quem os visse de longe juraria que eles e suas bengalas conversavam entre si.
Falavam da seca, do preço do milho, da política, das dores do corpo.
— Quando não dói num lugar, dói no outro.
— E quando para de doê é porque a gente morreu.
Deram outra risada.
O riso dos velhos tem qualquer coisa de resignação.
Juca cuspiu amarelo de fumo.
A névoa começava lentamente a se desfazer.
Foi então que Juca ficou sério.
Olhou demoradamente para a água como hipnotizado.
Parecia procurar coragem.
— Zé...
— Hum?!
— Tem um trem preso aqui dentro faz mais de cinquenta ano.
Zé virou apenas os olhos.
Esperou.
— Antes de nóis casá... com as muié que sonhamos...
Silêncio.
— Eu fiz uma bobage.
A água continuava correndo debaixo da ponte.
— Grande bobage?
— Grande.
Zé permaneceu imóvel.
— Cê lembra da Ritinha? perguntou Juca.
Zé respondeu apenas com um gesto.
— Pois é! exclamou Juca.
Outra pausa.
— Ela gostava de mim...
Zé apertou mais forte o cabo da bengala.
— Eu sei, continue.
— Ela era louca por mim, aditou Juca
––???
— Mas...
A palavra custou a sair.
— Antes do casamento...
Abaixou a cabeça.
— Ela e eu...
A frase custou a nascer.
–– Encontramo no paió de mio e arroiz.
Zoio no zoio... nois se deitô.
Não precisava continuar.
O resto o silêncio contou.
A névoa desaparecera completamente. O sol projetava seus raios nas cabeças de neve.
Zé permaneceu imóvel.
Sem uma palavra.
Sem um movimento.
Olhava apenas o córrego.
Depois de muito tempo perguntou, quase em sussurro:
— Era verdade, então...
Juca assentiu.
— Nunca tive coragem de te contá.
Havia um silêncio tão mortal que até o vento parecia ter medo de respirar.
Até que Zé levantou-se lentamente.
Apoiou-se na bengala.
Olhou para o amigo.
Não havia ódio em seus olhos.
Havia uma tristeza muito antiga.
Velha como ambos.
— Cinquenta ano... disse Zé.
— Cinquenta ano carregando isso... assentiu Juca. Todo dia.
Os dois envelheceram juntos. Só a culpa envelheceu sozinha.
Nova pausa.
Então Zé sorriu.
Um sorriso estranho.
— Pois ocê devia tê levado esse segredo pro túmulo, porque agora ele vai levá nós dois.
Antes que Juca pudesse responder...
Veio a primeira bengalada, seca, no ombro.
Ele cambaleou.
Instintivamente revidou.
A partir dali não existiam mais dois velhos.
Existiam dois meninos brigando.
Cinquenta anos desapareceram num instante.
Na briga, em vez de varas de goiabeira, usavam bengalas.
Toc! Tac! Crac! Pam!
As bengalas cruzavam o ar como espadas enferrujadas.
Entre uma pancada e outra ainda trocavam desaforos.
––Patife!
— Mentiroso!
— Traíra!
Os chapéus de palha voaram para as águas.
Os dois escorregaram na beira do barranco e afundaram num remanso. Apenas com a cabeça fora d’água, voltaram a bater um no outro com uma fúria que nenhum dos moradores da região imaginaria possível, em dois octogenários. Lutavam mais pelo passado do que pelo presente. Mais pela juventude perdida, do que pela mulher que ambos haviam amado.
Arrastados pelas águas, sumiram atrás de uma cortina de taquaras e macegas, à margem do córrego.
Depois...
Silêncio.
Muito silêncio.
Naquela tarde, de veranico, um menino que passava levando as vacas à invernada encontrou apenas duas bengalas lascadas e cruzadas, no chão poeirento.
Nem sinal dos velhos.
As buscas duraram dias.
Revistaram o córrego.
Entraram no mato.
Chamaram gente das redondezas.
Nada.
Absolutamente nada.
Como se ambos houvessem sido engolidos pela própria névoa daquela manhã.
Muitas luas se passaram; até hoje, ninguém soube explicar o sumiço.
Uns juram que escutam vozes discutindo no brejal. Outros garantem que viram dois vultos caminhando rumo ao espigão. Mas prova, ninguém deu. É só ti-ti-ti.
As únicas testemunhas que permaneceram são as duas velhas bengalas esquecidas e encostadas uma na outra, como dois amigos que, mesmo depois da última briga, ainda se recusam a seguir caminhos diferentes.
E, como acontece em todo arraial, logo nasceu a explicação.
Talvez o "Não-sei-que-diga" os levou para as areias-gordas.
Povo linguarudo... Não pode vê um mistério que inventa outro.
FINIS

Bom trabalho, gostei
ResponderExcluir