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O CONSELHO DOS BICHOS

 O CONSELHO DOS BICHOS

Assede Paiva


Era uma tarde de verão. O sol já começava a descer atrás do morro, dourando o pasto e alongando as sombras das árvores. No curral, na pocilga e no estábulo da velha fazenda, os animais estavam inquietos. E havia uma razão: naquela noite, depois que os homens se recolhessem, eles fariam uma reunião de pauta única: o bicho homem.

O primeiro a chegar foi o cavalo Alazão. Pataleou, trotou até o centro, sacudiu a crina e relinchou:

— Meus amigos, precisamos conversar sobre nosso tutor.

O touro, Barroso, enorme e pachorrento, levantou a cabeça, sacudiu o cocuruto e bramou:

— O que há para conversar? Nós o conhecemos desde que aqui viemos.

— Justamente por isso — respondeu Alazão. — os homens são os seres mais estranhos que já pisaram na terra e, se intitulam nossos donos.

Glu, glu, glu! Aquiesceu o peru, arrepiando as penas.

Um bezerro, que brincava perto da cerca, aproximou-se e gaiteou:

— Estranhos como?

Alazão, o cavalo, olhou para ele.

— São capazes de nos acariciar num dia e, no outro, vender-nos para um tropeiro ou boiadeiro ou, mandar-nos para o matadouro.

Fez-se silêncio, mas o burro zurrou.

Os gansos, que estavam juntos, perto do tanque, começaram a grasnar.

— Não generalize! — protestou o ganso, Gregório. — Há homens bons.

— Há, sim — concordou Barroso. — Conheci um que, durante uma tempestade, passou a noite inteira cobrindo os bezerros com uma lona para que não morressem de frio.

— E eu conheci uma menina — disse um patorra — que todos os dias trazia milho para nós. Nunca nos machucou. Conversava conosco como se entendêssemos tudo.

O cabrito, Tobias, sempre irreverente, deu um salto, passando sobre o cocho.

— Mas também conheci um homem que jogou uma pedra em mim porque eu comi suas flores!

Os patos riram: cuem, cuem, cuem.

— Você come tudo! — grasnou um deles.

— Isso não é desculpa para uma pedrada — respondeu Tobias, ofendido.

O cavalo, Alazão, permaneceu sério.

— O problema não é apenas aquilo que fazem conosco. É aquilo que fazem uns com os outros. 

–– Pela ordem! pediu a palavra o porco Bento.

Todos se calaram para ouvir Bento, o sábio:

–– Não é a força, nem a inteligência, nem o poder que torna uma criatura verdadeiramente boa. É o que ela decide fazer quando poderia fazer o mal, e desistiu. 

Assim falou o porco Bento e todos assimilaram a lição. 

Bento, que até aquele momento ficara calado, foi ovacionado.

–– E como ficamos?... Preciso tirar um ronco, onc, onc, onc!

E, sob o luar difuso, o terreiro voltou ao silêncio.

Só os gansos continuaram conversando: ganggangganggang,

Bento, já acomodado no chiqueiro, resmungou:

— E não se esqueçam: quando um homem disser que um porco é inteligente, desconfiem. Geralmente ele está pensando em alguma coisa. Não é para me gabar: nós, os porcos, somos inteligentes, sim.

Os animais caíram na risada: grasnando, piando, mugindo, berrando em todas as vozes.

Até Barroso soltou um mugido que parecia escarnecedor.

E a noite, cúmplice, ouviu o segredo daquele conselho de bichos.

— É verdade. Vi dois homens brigarem por causa de dinheiro. Eram irmãos. Um deles feriu o outro.

— Eu vi coisa pior — disse o ganso Gregório. — Homens matarem homens por causa de uma divisa de terra desenhada na escritura.

— E eu — acrescentou dona pata — vi um homem abandonar seu pai, numa estrada.

O bezerro, assustado, perguntou:

— Mas por quê?

Ninguém respondeu imediatamente.

Foi aí que o cabrito Tobias deu um salto e berrou, bebe! Aditou: 

— Talvez porque os homens tenham esquecido que todos são iguais.

O boi Barroso ergueu o focinho e sacudiu os chifres.

— Nós também brigamos. Às vezes damos cabeçadas, disputamos comida, espaço e fèmeas. Mas, quando um de nós está ferido, os outros ficam perto. Eu vi a vaca Malhada chorar, quando sua irmã, Pintada, foi morta por um magarefe.

O cavalo Pretinho relinchou, em concordância.

— Os homens construíram máquinas para ir à lua, descobriram remédios, escreveram livros, fizeram música, pintaram quadros...

— E fizeram bombas — interrompeu o ganso.

— E queimaram florestas — disse a patorra.

— E assorearam os rios — acrescentou Asno. Sou burro, mas não piso em mata-burros.

— E, apesar disso — concluiu o Alazão — os homens continuam sendo capazes de amar... e odiar.

O boi, Barroso abaixou a cabeça, pensava nos vaivéns da vida.

Um silêncio comprido caiu sobre o curral.

A lua cheia, em todo esplendor, aparecia por detrás do morro.

De repente, ouviu-se um ruído vindo da casa-grande.

Era o fazendeiro abrindo a porta da cozinha.

Os animais ficaram imóveis, atentos.

O homem caminhava lentamente pelo terreiro. Trazia nas mãos um balde. Parou diante do animal mais próximo.

Primeiro, deu água ao cavalo.

Depois, levou alimento ao boi.

Foi ao galinheiro, verificou as galinhas no poleiro, finalmente, aproximou-se dos patos e dos gansos que dormitavam no açude.

Antes de voltar para casa, acariciou a cabeça de um cachorrinho, deitado de barriga pra cima no canil.

— Durma bem, pequeno — murmurou.

O cãozinho lambeu a mão do homem.

Quando o patrão adentrou à casa, a bicharada falou:

O ganso, Gregório, grasnou mais alto: GANG...

— Talvez, seja esse o mistério dos homens.

— Qual? — perguntou Tobias.

— Eles podem ser cruéis como poucos seres da criação...

Fez uma pausa.

— ..., mas também podem ser bons como poucos.

Barroso, sorriu à sua maneira.

— Então não são melhores nem piores do que nós, os bichos.

— São diferentes — disse o Alazão.

— Em quê?

O cavalo olhou para a casa iluminada.

— Eles receberam um dom que nós não recebemos.

— O quê?

— A escolha.

Todos ficaram pensativos.

A patorra falou (ela tinha sabedoria):

— E, talvez seja justamente por poder escolher entre a bondade e a crueldade. que o homem seja, ao mesmo tempo, a criatura mais admirável e a mais perigosa da Terra.

Ninguém discordou. 

Naquela noite, cavalos, bois, bezerros, cabritos, gansos e patos chegaram à conclusão de que os homens talvez jamais conseguissem entendê-los.

E o galinheiro, o curral e a pocilga voltaram ao silêncio.

Só os gansos continuaram conversando.

Eles sempre tinham mais alguma coisa a dizer: ganggangganggang,

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