O SENHOR DECESSO
— Alô, Frazão, há produção hoje?
— Ainda não. Aguarde, se aparecer alguma coisa, aviso.
— Você precisa me “ajudar” mais. O movimento anda fraco...
Houve um breve silêncio.
— Faça o seguinte: vá direto ao escritório da ala nova. Sua “encomenda” de sempre está lá.
— Entendido.
A conversa parecia banal, apenas para quem desconhecia o verdadeiro significado das palavras produção e encomenda.
De um lado da linha estava o proprietário da funerária Pax Æternum; do outro, Frazão, maqueiro de um grande hospital, da antiga capital do Brasil. A mercadoria negociada não tinha voz, nem podia reclamar do preço: era cadáver.
Frazão era querido por todos. Ninguém sabia que ele era “corretor” de funerária.
Homem robusto, cordial, pai dedicado, nunca chegava em casa sem levar pão fresco para os filhos. No Natal, fazia questão de distribuir presentes. Religioso, caminhava pelos corredores com uma Bíblia debaixo do braço. De vez em quando, recitava um salmo para os mais debilitados e necessitados de apoio religioso. “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados."
Os pacientes o adoravam.
Conferia o soro, regulava o oxigênio, ajustava sondas, verificava os monitores cardíacos e, quando alguém demonstrava sofrimento, massageava as costas do doente com delicadeza, amenizando suas dores.
— Amanhã será outro dia — dizia aos aflitos, quase um sussurro.
Chamavam-no de "Mãos de anjo".
Mas nem todo anjo pertence ao céu. Talvez ele fosse acólito de Lúcifer.
Na entrada do hospital havia uma placa:
Convênio com o Funrural.
Os visitantes que passavam depressa, distraídos, juravam ler:
Convênio com funerária.
Mal sabiam quão perto estavam da verdade.
Naquele fim de tarde, Frazão recebeu o aviso.
Na ala nova havia um paciente extremamente depauperado.
Levou-o a um quarto isolado. Fechou as cortinas.
Esboçou um sorriso.
— Meu amigo... o senhor vai fazer uma longa viagem. Vai descansar em campos verdejantes... vai encontrar Deus.
–– Feliz Ano-Novo!
Era fim de ano...
Puxou o travesseiro e apoiou-o lentamente sobre o rosto da vítima.
Enquanto aumentava a pressão, começou a cantar baixinho:
São horas tristes que passam na vida,
derramando lágrimas como eu derramei...
O doente debateu-se apenas por alguns segundos.
Depois, aquietou-se.
Frazão retirou o travesseiro, ajeitou os lençóis e aproximou os lábios do ouvido do morto.
— Viu como foi fácil? sussurrou.
Chamava aquilo de "ajudar o destino".
Com cada óbito, aumentava sua comissão junto à funerária. Além disso, surgiam vagas para novos internados.
Na sua lógica perversa, todos morreriam um dia; ele apenas antecipava o inevitável.
Pôs carinhosamente a cabeça do paciente sobre o travesseiro.
Chamou um auxiliar para ajudá-lo a pô-lo na maca.
–– Vou leva-lo ao Raio X.
Mas foi noutra direção...
Haviam construído nova ala num lugar estranho, inadequado mesmo. Ficava isolada dos demais pavilhões, com ligação subterrânea entre eles. Para alcançá-la, era preciso descer de elevador até o subsolo e atravessar um longo corredor tomado por máquinas, entulho de obras, bens inúteis, abandonados, geladeiras velhas etc.
A iluminação era escassa.
Os funcionários apelidaram o local de Túnel da Morte.
Comentava-se, em voz baixa, que quase todos os pacientes enviados para lá acabavam morrendo.
E, curiosamente, quando Frazão estava de plantão, esse índice era muito maior.
Certa manhã, tentando mover sozinho um paciente excessivamente pesado, Frazão fez um enorme esforço.
Sentiu uma fisgada.
Era uma hérnia inguinal.
Ignorou o problema.
Os meses passaram.
A hérnia aumentou até que, durante o expediente, estrangulou-se.
A dor foi insuportável.
Dessa vez, o paciente era ele.
Conduziram-no imediatamente ao centro cirúrgico.
Sob efeito da anestesia, ouviu o cirurgião comentar:
— Vamos precisar ressecar o saco.
Frazão arregalou os olhos.
— O saco, não!... Pelo amor de Deus!
O cirurgião e o anestesista entreolharam-se antes de cair na gargalhada.
Falavam do saco herniário.
Não do escroto.
Frazão tentou levantar-se da mesa.
Foi contido.
— Mais anestésico.
— Ele está muito agitado.
A escuridão voltou.
Horas depois, ainda confuso, despertou na sala de recuperação.
Escutou alguém dizer:
— Correu tudo bem. O saco já era.
Um gemido atravessou a sala.
O cirurgião aproximou-se sorrindo.
— Calma... Aproveitamos para retirar também um cisto na barriga e uma verruga suspeita na testa. Está tudo certo. Não retire a bandana, no momento, você parece uma múmia.
Mas Frazão já não escutava. Estava desesperado.
Arrancou agulhas, desconectou tubos, tentou levantar-se.
Cambaleou.
Caiu ao chão.
Nova sedação.
Quando voltou a si, estava sendo levado numa maca.
Reconheceu imediatamente o caminho.
Estava grogue, mas sabia o trajeto:
O elevador.
O subsolo.
O túnel mal iluminado.
A ala nova.
O sangue gelou.
Era sexta-feira...
Sexta-feira era o dia do convênio com a funerária.
O dia em que o rabecão buscava corpos.
E, quando algum paciente insistia em permanecer vivo...
...Frazão concluía o serviço.
Aplicava um sedativo.
Depois, o travesseiro.
Agora compreendia.
Chegara sua vez de beber do próprio veneno.
Rezou.
Pela primeira vez, teve medo e desejou em desespero, viver.
O dono da funerária aguardava impaciente junto à câmara mortuária.
O carro funerário não podia voltar vazio. Havia despesas, impostos, gasolina, salário do pessoal etc.
Quando viu aproximar-se a maca com o corpo completamente enfaixado, imaginou tratar-se de um cadáver fresco.
Não havia como reconhecer Frazão, ele tinha uma bandana na cabeça.
O agente funerário olhou em volta.
Nenhum funcionário, ninguém para perguntar, nem para ajudar.
Apressado, o motorista fez o que tantas vezes vira o maqueiro fazer.
Esperou alguns instantes.
Depois fechou o zíper do saco funerário.
Enquanto batia as portas do rabecão, sorriu satisfeito.
“Estranho... Frazão não apareceu hoje”.
Ligou o motor. E pensativo:
“Melhor assim...”
“Fiz o serviço sozinho...”
“Economizei a comissão”.

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