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O Taxista



Chat GPT e Gemini colaboraram


O espelho retrovisor do táxi é uma tela de cinema em miniatura onde o mundo se confessa sem perceber. Para Seu Valdir B***, um homem de sessenta anos com mãos calejadas pelo volante e, cabelos grisalhos cortados rentes, aquele pedaço de vidro curvo era o altar, o confessionário e a vitrine da cidade.

O carro — um sedan cor prata, de 2022, com o cheiro característico de aromatizante lavanda, misturado a tecido antigo, não era seu ganha-pão; era um confessionário ambulante, rodando sobre quatro pneus carecas pelas artérias asfaltadas do centro urbano. Valdir conhecia a cidade não só pelos mapas, mas também pelas dores, desejos e loucuras que desfilavam pelo seu banco traseiro. Na verdade, o taxista era o muro das lamentações.

Naquele sábado cinzento de chuva fina e trânsito lento, o taxímetro parecia contar mais do que moedas: contava o peso das almas que entravam e saíam de sua vida, em corridas de vinte minutos; às vezes, de horas.

O Pastor e o Peso da Salvação

A primeira corrida marcante daquela jornada começou por volta das duas da tarde, em frente à imponente catedral de concreto do centro, consagrada à Nossa Senhora do Carmo. A porta traseira do possante se abriu e um homem de terno alinhado, cinza, sem uma única dobra, entrou no veículo. Carregava uma bíblia de capa de couro desgastada no colo e uma pasta de couro sintético. Exalava um perfume de alfazema e uma aura de absoluta certeza; ser um homem de Deus.

— Boa tarde, meu irmão. Para a Praça da República, por favor — disse o passageiro, com uma voz aveludada e impostada, acostumada aos microfones e ao eco das naves das igrejas.

— Boa tarde, chefe. Vamos... — respondeu Valdir, ligando o carro, engatando a primeira marcha e inserindo o carro no fluxo caótico do tráfego.

O silêncio durou apenas até o primeiro sinal vermelho. O homem ajeitou a gravata borboleta, olhou para a nuca de Valdir e começou o ataque delicado, com uma preleção sobre a salvação da alma e os terrores do inferno.

— O amigo motorista já parou para pensar para onde vai a sua alma se este carro bater agora?

Valdir deu um sorriso discreto no canto dos lábios, os olhos fixos no semáforo. Já tinha ouvido aquela pergunta uma centena de vezes em vinte anos de praça.

— Olha, senhor pastor, para falar a verdade, no trânsito dessa cidade eu só penso em não bater no motoqueiro da frente. A alma, a gente deixa para cuidar quando desligar o motor, aí, vou ao templo ou à Igreja e oro, pedindo perdão pelos meus pecados.

— A morte vem como um ladrão na noite, meu amigo — insistiu o pastor; o homem era evangélico. Ele debruçou ligeiramente sobre o espaço entre os bancos dianteiros, segurando a bíblia com as mãos como se apresentasse um escudo. 

— O senhor tem aceitado a Palavra? Ou mora num mundo de trevas? Cuidado com o chifrudo! Olhe para fora dessa janela: drogas, violência, prostituição, ganância... Esta cidade está condenada. Se o senhor não entregar sua vida a Jesus, hoje, o fogo eterno o aguarda.

Valdir escutava com impaciência. Olhou para o retrovisor e encarou os olhos fervorosos do pastor. Havia ali uma intenção genuína de salvação, mas também uma incapacidade profunda de enxergar o ser humano por trás do volante. E pensou:

“Jesus veio para todos.”

— Respeito muito a sua fé, pastor — disse Valdir, com a voz calma de quem já viu de tudo. — Mas sabe o que é? Eu vejo Deus aqui dentro do táxi todo dia. Às vezes, Ele entra na forma de alguém me dando um bom dia sincero. Às vezes, Ele é só a paciência que preciso ter quando alguém me corta sem dar seta. Se Deus for me condenar por não ir ao Seu templo, no domingo, depois de eu rodar doze horas por dia, para sustentar minha família, sem roubar ninguém...  aí, o problema vai ser Dele.

O pastor piscou, surpreso com a firmeza desarmada do motorista. Puxou um folheto da pasta, citou o versículo Mt 7:13-14:  "Entre pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela”.  

— Que o Senhor amoleça esse seu coração,  — disse ao desembarcar.

— Amém, pastor. Vá em paz! — respondeu o taxista, pegando o folheto e guardando no porta-luvas, ao lado de dezenas de outros papéis esquecidos. Algum dia, a papelada iria para a “cesta”-seção...

O Garoto e o abismo

O sol começou a se desmanchar em tons de laranja e violeta, sujo, por trás dos prédios, quando Valdir aceitou uma chamada perto de uma estação de metrô movimentada. O passageiro que entrou não pediu licença, nem disse boa tarde. Praticamente caiu para dentro do banco de trás, batendo a porta com uma força que fez o carro estremecer.

“Desregulou minha porta, pensou o taxista um tanto irritado.”

Era um rapaz jovem, não devia ter mais do que vinte e dois anos. Estava pálido, com olheiras profundas e uma tremedeira incontrolável nas mãos. Vestia um moletom rasgado no punho e exalava um suor frio e azedo, o cheiro inconfundível do desespero físico.

— Me leva pra baixada... na entrada da favela do Moinho. Rápido, moço, por favor, rápido! — A voz do rapaz era um sussurro esganiçado, entrecortado por fungadas.

Valdir olhou pelo retrovisor do teto e sentiu um aperto imediato no peito. O garoto tinha a mesma idade do seu neto mais velho.

— Calma, filho. Vou te levar. Mas relaxa aí, encosta a cabeça — disse Valdir, engatando a marcha e tomando o caminho do bairro periférico, longe do brilho do centro comercial.

Durante o trajeto, o menino não parava quieto. Checava os bolsos repetidamente, tirando e guardando algumas notas amassadas de dez e vinte reais, contando-as obsessivamente. O joelho esquerdo batia no banco da frente numa frenesia mecânica.

— Tá tudo bem aí atrás, garoto? — perguntou Valdir, suavizando o tom de voz.

— Preciso chegar lá, antes que fiquem sem... se eu não usar agora, eu vou morrer, moço. O senhor não entende, parece que meus ossos estão se quebrando por dentro — desabafou o jovem, cobrindo o rosto com as mãos compridas e magras. As lágrimas começaram a rasgar a sujeira do seu rosto.

Aquela era a boca de fumo. O destino de quem já não pertence a si mesmo. Valdir lembrou-se do pastor de poucas horas atrás, falando sobre "fogo eterno" e "condenação". Ali, no seu banco de trás, o inferno não era uma ameaça futura; era uma realidade palpável, biológica, dolorosa. Na realidade, ele estava em surto, na carência de droga.

— Eu entendo que tá doendo, filho. Mas você tem mãe? Alguém te esperando em casa?

— Minha mãe desistiu de mim faz um ano, moço — o garoto olhou para a janela, vendo os postes de luz passarem como vultos amarelados. — Ela rezava por mim todo dia. Mas a pedra é mais forte. Eu vendi o celular dela mês passado. Não tem mais volta pra mim.

— Sempre tem volta enquanto o motor tá rodando, garoto — disse Valdir, com uma gravidade paternal. — Eu já vi muita gente sair do buraco. É difícil pra diabo, mas tem jeito. Enquanto houver vida, ainda existe caminho.

O carro dobrou a última esquina asfaltada e entrou na rua de terra batida que dava acesso aos becos iluminados por lâmpadas em gambiarra. Pessoas em pé, nas esquinas observaram a chegada do táxi com olhares desconfiados. Alguns portavam fuzis. Valdir estacionou. O garoto estendeu as mãos trêmulas com o dinheiro da corrida.

— Fica com o dinheiro, filho. Compra um pão, uma água... pensa no que eu te falei — disse Valdir, recusando o pagamento.

O rapaz olhou para o taxista com os olhos arregalados, surpreso com aquele gesto absurdo no meio do seu caos. Por um segundo, a tremedeira pareceu parar.

— Obrigado, moço... — murmurou o jovem, saindo do carro e sumindo na penumbra da viela.

Valdir suspirou fundo, limpou uma lágrima discreta do canto do olho e deu a ré, deixando a escuridão para trás.

“Jesus te ama”, disse à guisa de bênção.

A Mulher da Noite e a Máscara Caída

A chuva apertou por volta das nove da noite. As ruas brilhavam como espelhos pretos refletindo os néons dos bares e boates. Em frente a um clube noturno de alto padrão no bairro nobre, uma mulher acenou sob a marquise.

Entrou no táxi trazendo consigo uma tempestade de sensações. O cheiro de perfume doce e caro invadiu a cabine, misturado ao odor de cigarro de menta. Ela usava um vestido vermelho extremamente justo, saltos agulha prateados e uma maquiagem pesada que destacava seus olhos expressivos e, lábios pintados de carmim.

— Boa noite, motorista. Me leva no Edifício Platinum, por favor — disse ela. A voz era aveludada, profissional, treinada para agradar.

— Boa noite, moça, vamos lá!

Nos primeiros cinco minutos, ela manteve a postura: costas eretas, olhando para o celular, checando as mensagens com um sorriso ensaiado. Mas conforme o táxi se afastava da zona boêmia e o silêncio do carro envolvia os dois, o cansaço acumulado da vida pareceu desabar sobre suas costas.

Valdir viu, pelo espelho, o momento exato em que a máscara da moça se desfez e a face legítima apareceu.

A mulher soltou um suspiro profundo e doloroso. Com um gesto de alívio, tirou os sapatos de salto alto, encolheu os pés no banco de couro e encostou a testa no vidro frio da janela. A maquiagem não conseguia esconder a exaustão nos seus olhos e o cansaço de sua tez.

— Dia duro? — perguntou Valdir, com a delicadeza de quem não quer invadir, mas se coloca à disposição.

Ela olhou para o retrovisor, percebendo que o motorista não a olhava com julgamento nem com desejo vulgar. Era apenas um velho escutando.

— Você não tem ideia, — disse ela, a voz agora sem o tom sedutor, revelando uma mulher comum, cansada, sofrida. — Trabalhar com a ilusão dos outros é a coisa mais exaustiva do mundo. Todo homem que entra naquele quarto quer que eu seja uma pessoa diferente. Um quer uma rainha, o outro quer uma escrava, o outro só quer alguém pra chorar e contar que a esposa não o ama mais. E, no fim do dia, eu não sei nem mais quem eu sou quando me olho no espelho.

— O trabalho da noite pesa mais na alma do que no corpo, né? — comentou Valdir.

— Pesa sim. Mas paga a faculdade de medicina da minha irmã e o aluguel da minha mãe, lá no interior.  — Ela deu um risinho amargo, ajeitando o cabelo. — Elas acham que eu trabalho com eventos, relações públicas. E de certa forma, é verdade. Eu vendo uma fantasia.

— Você tá fazendo o que precisa ser feito pra cuidar dos seus, minha filha. Não cabe a mim nem a ninguém julgar o peso da sua cruz. Só toma cuidado pra não se perder de você mesma no caminho.

A mulher olhou para Valdir com um fascínio triste. Estava acostumada a ser ridicularizada, desejada ou moralmente atacada. Raramente era ouvida como um ser humano.

— O senhor é um homem bom, motorista. Geralmente os caras do táxi ficam me fazendo perguntas idiotas ou me olhando pelo espelho como se eu fosse um pedaço de carne.

— Eu tenho filha, moça. Tenho neta. Sei que a vida dá voltas esquisitas e que todo mundo tá só tentando sobreviver do jeito que dá. As ondas da vida nos levam a praias que não queríamos... Maktub!

Quando o táxi parou em frente ao prédio de luxo onde ela morava, a corrida deu quarenta e cinco reais. Ela tirou uma nota de cem da bolsa e entregou a Valdir.

— Pode guardar o troco, moço. Pelo respeito. Valeu mais do que qualquer gorjeta.

— Obrigado, filha. Vai descansar. Toma um banho quente e dorme em paz.

Ela sorriu, um sorriso verdadeiro desta vez, sem máscara na alma, colocou os saltos na mão e caminhou descalça pelo hall do prédio. 

A conversa daria em redenção.

A Noiva e a Promessa do Amanhã

Já passava das onze da noite quando Valdir decidiu fazer a última corrida antes de recolher o carro para a garagem. O aplicativo tocou indicando o endereço de um salão de beleza renomado na zona sul. Ao se aproximar, viu um pequeno alvoroço na calçada.

Duas cabeleireiras e uma mulher mais velha tentavam desesperadamente acomodar uma visão em branco no banco traseiro do veículo. Era uma noiva.

O vestido era uma estrutura enorme de tule, renda e bordados brilhantes que parecia ocupar três quartos de todo o espaço interno do carro. O véu quase ficou preso na porta. O cheiro no carro mudou instantaneamente: agora era uma mistura de laquê de cabelo, flores frescas e o aroma inconfundível de pânico puro.

— Pelo amor de Deus, moço! Para a Igreja de São José, rápido! Estou vinte minutos atrasada! — gritou a noiva, ajeitando o véu com as mãos trêmulas.

Valdir acelerou com cuidado, consciente de que carregava a carga mais delicada do dia.

— Fica tranquila, moça. O noivo não vai a lugar nenhum. Eles sempre esperam — disse Valdir, tentando acalmar a tempestade de ansiedade que se instalara no banco de trás.

— O senhor não entende! E se ele desistiu? E se ele percebeu que eu sou confusa, complicada, que a gente vai se dar mal? E se o trânsito parar? Meu Deus, eu tô hiperventilando! — a moça cobriu o rosto com as mãos cobertas por luvas de renda, à beira de um ataque de choro.

Valdir olhou pelo retrovisor. A garota era linda, radiante sob a maquiagem impecável, mas o pavor de dar o passo mais importante da sua vida a mantinha paralisada.

— Olha pra mim pelo espelho — pediu Valdir, mantendo a voz firme e doce ao mesmo tempo. Tudo será como tem de ser, acalme-se!

A noiva ergueu os olhos marejados e encarou o motorista.

— Eu sou casado há trinta e oito anos — começou Valdir, desviando o olhar para prestar atenção na pista molhada. — Sabe qual é o segredo? Não é encontrar alguém perfeito, porque isso não existe. É encontrar alguém que você olhe na segunda-feira de manhã, com bafo, cabelo bagunçado e boleto pra pagar, e ainda assim você pense: "É com essa pessoa que eu quero passar a vida". Você ama esse rapaz?

— Amo... Amo mais do que tudo — respondeu ela, soltando o ar que parecia preso em seu peito.

— Então relaxa. O casamento não começa na igreja, com a marcha nupcial e as flores. Começa amanhã, quando a festa acabar e vocês tiverem que decidir o quê almoçar. A cerimônia de hoje é apenas um ritual. O casamento começa amanhã. Ele tá te esperando, suando frio no terno dele, com medo de VOCÊ não aparecer.

A noiva soltou uma risada nervosa, limpa, descarregando a tensão acumulada de meses de preparativos.

— O senhor é um terapeuta ao volante, sabia?

— Sou um velho que já errou muito e aprendeu um pouquinho assistindo a vida passar pelo retrovisor — sorriu.

Quando o táxi dobrou a última rua, a imponente fachada da igreja iluminada surgiu à frente. Havia convidados na escadaria e o noivo, visivelmente ansioso, era visto pela porta aberta do templo.

Ao parar o carro, o pai da noiva correu para abrir a porta. A garota segurou no ombro de Valdir antes de sair.

— Quanto deu a corrida?

— É por conta da casa, noiva. Considere meu presente de casamento. Só me faça um favor: seja feliz.

Os olhos da jovem brilharam. Ela apertou a mão do taxista com força.

— Eu vou ser. Muito obrigada, nunca vou esquecer do senhor!

Fim do Expediente

Era quase uma da manhã quando Valdir encostou o táxi em um posto de gasolina vinte e quatro horas, na saída da cidade. Pediu um sanduiche com café preto, num copo de plástico. Encostou-se no capô, ouvindo estalidos do motor esfriando, gradativamente.

A chuva finalmente tinha parado, deixando o ar limpo e a noite silenciosa.

Fé, tragédia, sobrevivência e esperança. Todos os passageiros tinham sentado no mesmo banco de couro sintético, sob o mesmo teto, respirando o mesmo ar, num intervalo de poucas horas. Nenhum deles era melhor ou pior; eram apenas histórias da fauna humana, incompletas, buscando destino no meio da escuridão da cidade.

Valdir tomou o último gole do café amargo, jogou o copo no lixo e abriu a porta do motorista. Entrou, ajustou o espelho retrovisor para a sua própria imagem e deu a partida. O motor roncou familiar e amigo.

Ele olhou para o interior do veículo através do vidro fumê. O banco de trás, agora estava vazio. No entanto, o espaço ainda parecia impregnado por todas aquelas vidas. O folheto do pastor no porta-luvas, lembrando a busca incessante pela salvação divina. As notas amassadas do garoto viciado, que guardara no bolso, como um amuleto de oração. O perfume, doce, da dama da noite que ainda pairava sutilmente no ar, como lembrança da dor escondida sob o glamour. Um pequeno pedaço de tule branco, que se soltara do vestido da noiva e ficara preso na fivela do cinto de segurança.

Valdir sorriu. Pensou no pastor que queria salvar almas, sem perceber a cruz que carregavam; no rapaz que caminhava para o inferno das drogas, pedindo apenas minutos de alívio; pensou na mulher que vendia ilusões para sustentar quem amava; e, finalmente, na noiva que tremia diante da felicidade. Passageiros, destinos, e maneiras diferentes de encontrar paz. Cada um acreditava seguir um caminho especial, mas todos, de alguma forma, viajavam em busca de um lugar onde o coração pudesse descansar. 

O taxista ligou o rádio, bem baixo. Uma velha canção falava de esperança. Enquanto saía do posto e seguia pelas ruas, quase vazias, compreendeu que seu ofício jamais fora apenas conduzir pessoas. Havia transportado medos, culpas, pecados, sonhos e promessas. Alguns esqueciam dinheiro sobre o banco; outros, deixavam perguntas que o acompanhariam por muitos anos. 

E, naquela noite, teve a estranha certeza de que se Deus andava, pela cidade, depois da meia-noite; talvez, preferisse viajar com um taxista, ouvindo, em silêncio, as confissões que ninguém fazia dentro de uma igreja.

O Último Passageiro

No caminho de volta, quando já pensava apenas no banho quente e na cama, Valdir avistou um rapaz fazendo sinal à margem da estrada. Vestia roupas simples, olhava para todos os lados com evidente nervosismo e carregava uma pequena mochila junto ao peito. O taxista parou.

— Pode me deixar no bairro Jardim das Flores? 

Durante minutos viajaram em silêncio. De repente, o jovem respirou fundo e, como outros passageiros daquele banco traseiro, começou a desabafar.

— O senhor vai me achar um monstro... Sou traficante, tenho boca de fumo. Entrei nisso ainda menino. Destruí famílias e nem sei mais a quantos ajudei na partida. Hoje, aconteceu uma coisa estranha. Vi minha filha dormindo e ela sorriu enquanto sonhava. Pela primeira vez, tive medo de que ela crescesse e descobrisse quem é o pai.

–– Filho, ninguém apaga o ontem. Mas todo homem pode decidir o novo amanhã. Enquanto houver arrependimento sincero e coragem para mudar de estrada, Deus escreverá capítulos novos. O difícil não é abandonar o tráfico; é permanecer longe dele...

— Acha que ainda existe esperança para mim?

— Se eu não acreditasse nisso, teria perdido a fé na humanidade há anos.

Ao chegarem ao destino, o jovem retirou da mochila um embrulho e o estendeu ao taxista.

— É dinheiro sujo. Não quero mais viver dele.

— Use-o para recomeçar, procure trabalho, entregue-se à justiça, e honre sua filha. Seja homem de bem. Esse será o maior pagamento da sua vida.

O rapaz desceu. Antes de fechar a porta, voltou-se para o taxista.

— Hoje, o senhor não me levou apenas para casa. Mostrou-me o caminho de volta para mim mesmo.

Valdir sentiu que ganhara o dia, seguiu em frente com um sorriso discreto. Naquela noite compreendeu que, às vezes, a corrida mais importante não termina quando o passageiro desembarca. A corrida continua dentro dele... 

Era hora de voltar para casa.

O taxista percorreu mais dois quarteirões antes de chegar ao portão de casa. Desligou o motor, mas permaneceu alguns instantes em silêncio, as mãos ainda apoiadas sobre o volante. A cidade dormia. Apenas um cão latiu ao longe e uma janela se apagou, como se também encerrasse o expediente.

Antes de sair, passou um pano sobre o espelho retrovisor. Era um gesto antigo, quase um ritual. Não limpava apenas a poeira; limpava as lágrimas invisíveis, os sorrisos, os medos e as esperanças que ali haviam ficado refletidos ao longo do dia. Sabia que, na manhã seguinte, outros rostos ocupariam aquele pequeno palco, trazendo novas histórias, novos pecados, novas alegrias e novas perguntas para as quais ninguém possuía resposta.

Sorriu discretamente. Enquanto houvesse alguém precisando ir de um lugar para outro, haveria alguém para levar e ouvir. E, talvez, fosse exatamente essa a missão que Deus lhe reservara: não salvar almas, não as julgar, nem mudar seus destinos, mas apenas conduzi-las, por alguns quilômetros, com respeito, silêncio e humanidade. 


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