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ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM

  ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM Asséde Paiva Recordar é viver Relembrando meu colega e amigo Tércio de Castro Rocha (um granberyense) Até as pedras... Diz o velho ditado que até as pedras se encontram. Amigos e amigas, o que vou relatar tem alguma similaridade com esse provérbio. Tenho em mãos uma fotografia do dia de casamento de Amélia e Riquito, em Paula Lima, nos idos 1948 (foto1). Aparecem nesta foto além de noivos e padrinhos, eu Asséde Paiva, então com 14 para 15 anos (I); meu irmão, ao lado (II); e em baixo, de branco, em posição de sentido, Tércio de Castro Rocha (III). Nossos caminhos (o meu e de Tércio) cruzaram-se diversas vezes e em outras foram paralelos; e, isto de certa forma, valida o ditado “Até as pedras...” Pois bem, em 1946 eu fiz o quarto ano primário no grupo escolar Antônio Carlos, em Mariano Procópio, em Juiz de fora. Nesta época, Tércio estava lá também. Não nos conhecíamos, mas nossos caminhos se cruzaram nas horas do recreio. Depois, fui fazer o quinto ano ...

DELÍRIOS

 DELÍRIOS

Asséde Paiva

delírios


A porta do elevador abriu silenciosamente, no sexto andar, deslizou no leito de metal, como se fosse manteiga no pão. Só restavam o ascensorista e um passageiro.

— Fim de linha, não vai sair... senhor?

O homenzinho olhou-o, ausente e saiu empertigado. Tinha o cabelo liso, penteado em direção à testa, sequer acenou ao ascensorista, com sorriso indefinido fechou a porta e se foi. O homem ficou só no hall deserto. Estava ali a contragosto, diziam que estava doido, discordou e foi por conta própria consultar. Tinha ar solene. Embora fizesse muito calor, o jaquetão estava abotoado e assim parecia ser militar; a mão direita apoiava-se sobre o estômago, como o “grande Corso” aparece nos retratos. O homem teve instante de indecisão: Olhou pra lá, olhou pra cá; optou pelo corredor à esquerda. Caminhou lento, tenso, examinando cada porta, cada inscrição. Parou à porta onde estava registrado o nome do médico, a especialidade e, o número, 666, o que na cabeça dele era número ruim. “Não gosto deste número, é o número da besta.” Quis entrar, mas três latagões, impassíveis, obstruíam a porta de entrada. Eram como pedra, nenhum sinal de vida. Um deles tinha cigarro aceso, esquecido entre dedos e a brasa lhe queimando a mão. O recém-vindo forçou passagem, empurrando um dos três para o lado. Deu bom dia, genérico, aos demais pacientes. Alguns responderam; outros, o ignoraram solenemente. Um nem tirou os olhos da revista cheirando a mofo, que manuseava; outro inerte, tinha a cabeça pendida, e, da sua boca escorria baba; um morto apresentaria melhor face. Pessoas sem interesse, sentadas e de pé; todas com olhar distante. Então, o novato checou o relógio de parede, que marcava duas e trinta. Foi á janela e conferiu com grande relógio, na torre de supermercado também marcava duas e trinta. Puxou o Patek Philippe do bolsinho da calça, também duas e trinta; sorriu aprovador. 

A sala era ampla, pintada de branco, com barra azul. Mesinha no centro, jarro etrusco e flores de plástico; catálogos e/ou revistas médicas desarranjadas ensebadas. No alto, um ventilador fingia que ventilava e suas pás desajustadas, enferrujadas faziam crac-crac-crac, ameaçando cair. Outra porta dava acesso ao gabinete médico. Enorme janela em frente a prédio fronteiro. Vez por outra, iniciavam conversação com ele, que não dava provimento e, o assunto morria. 

O doutor, no consultório, tocava uma campainha chamando a atendente, que rápida e entrava. Logo, ouvia-se um urro, era eletrochoque, com certeza. E um “Jorge Washington” saía cambaleante...

O nosso herói olhava o relógio na parede: Duas e trinta. O tempo e espaço se confundiam estáveis. Raciocinou: “Ah, era isto, estava em um vórtice, numa dimensão diferente, onde o tempo-espaço se confundem”. O infeliz não atinou que os relógios coincidentemente estavam parados na mesma hora. Cerrou as pálpebras sonhadoramente. Enrolava eletroencefalograma, com mãos trêmulas.

Os seguranças que estavam de pé à porta de entrada, foram embora, pois eram também doentes. A sala foi se esvaziando: Maria das Dores; Joaquina Felismina; Mané Pedra; Joaquinzão e outros se foram, após darem seus urros. Os sons iam diminuindo. A recepcionista os chamava, longínquo, todos eles; um a um. 

E o tempo passando, e os relógios marcando as mesmas horas: 2h30minutos.

Disse um dos clientes: 

 Sei que estou muito doente, minha cabeça pesa uma tonelada, tenho medo de multidões, acho que vou morrer a qualquer instante; ontem, me agarrei num poste para não cair, tenho tremedeiras, sou homem dividido, um rádio pegando duas estações. 

Era ao que parece, o único que se reconhecia-se doente naquela sala.

Toc-toc-toc (nós dos dedos batendo na tampa da mesa), meu caso foi um acidente, toc-toc-toc, o ônibus que eu peguei deu um arranco toc-toc-toc e arrebentou meu estômago, o médico há de pô-lo no lugar.

No ambiente estavam lídimos representantes dos destroços da fauna humana.

O tempo realmente não passava, o lugar era especial. Nosso herói observou ainda que um dos finalistas era bom no tricô; outro, distraído, rasgava a revista, em vez de lê-la; aliás, as revistas estavam lastimáveis. 

Ouviu-se um cliente dizer: 

— Eu não estou doente, não sou doente, minha neta me pôs aqui, para o médico me receitar calmante. Ela quer meu dinheiro, eu só quero ir para minha fazenda, que os meus parentes estão tomando de mim. 

Uma mulher franzina entrou na conversa:

— Eu também sou sozinha, só porque piquei umas cobertas com tesoura, acham que estou fora de mim, não estou; doidos são eles. Só porque vejo pessoas atravessando paredes lá em casa. Na verdade, são escravas, com grandes turbantes e saias rodadas, num vaivém danado, da sala para os quartos. Minha filha também as vê... 

E outra:

— Olhem aqui, vocês acham que estou doente? Meu pessoal não quer que eu faça comida porque estou misturando fubá com sal; arroz com farinha e, afinal, só quero fazer um mingau. Comi também uns abacates verdes...

— Não podem fumar, disse a recepcionista, contrariada. Apontou para a parede onde o cartaz não fume bem evidente: um cigarro quebrado, cortado por traço vermelho.

— Eu sei! Estou chupando pirulito. O olhar perdido... e o sorriso amarelo.

O herói desta história continuava manuseando o eletro, por fim, à guisa de reclamação, disse à moça da recepção que o local parecia ajuntamento de malucos. 

Ela respondeu, com deboche: 

— Nada disso! São nervosos, deprimidos, esquizofrênicos, com pânico e outros problemas, que vêm consultar com o doutor Hermano Tegrethol. O doutor é muito competente, certo dará um jeito em todos. Você vai gostar dele. Todos nossos pacientes são “absolutamente sãos”.

Houve silêncio momentâneo. Uma mulher tremia sem cessar, tal junco ao vento; talvez com o mal de Parkinson. Ela entornou o cafezinho que se servira. Podia-se concluir que ninguém era doente, ou todos eram. 

— Falam que sou psicótico... lamentava/reclamava um gorducho. 

— Dizem que sou paranoico, adicionava outro, curvado pela idade.

— E um grandalhão:

 –– Eu digo que escuto vozes, podem crer. Olhem! estou vendo o pessoal do outro prédio falando mal de mim, tenho ouvido sensível. Aquelas mulheres, lá na calçada, querem me namorar, eu sou bonitão mesmo... 

— Falem baixo, meu ouvido não aguenta, ordenou a secretária.

Silêncio...  até que conversas extravagantes recomeçaram. O senhor que entrara por último, nosso herói, estava inquieto. Agora, olhava constantemente seu relógio, o da parede e o do supermercado, os quais continuavam teimosamente marcando duas e trinta. “O tempo não passa nesta clínica”.

— Eu sou matemático, insinuou um paciente ao seu ouvido; fiz cálculos secretos e descobri a fórmula da Bomba Atômica. 

Abriu um caderno cheio de pseudocontas, da primeira à última página. Meu nome é Einstein.

— Eu sou Alípio, sou perseguido pelo prefeito porque faço oposição, estava pensando dar um tiro na cabeça, e meus filhos me mandaram aqui para o doutor ver o que se pode fazer. 

Nosso herói preferiu se ausentar mentalmente a continuar ouvir baboseiras dos candidatos a hóspedes de um hospício. Cerrou as pálpebras tentando cochilar. As horas passavam só os relógios firmes nas duas e trinta. O ruído cessou de vez. 

Por fim, a moça chamou: 

— Senhor Napoleão! Napoleão! 

Ela separou claramente as sílabas: Na-po-lê-ão!

Silêncio. A moça levantou-se, foi ao homem, segurou-lhe o braço.

— Não está ouvindo? Está dormindo? É sua vez! 

Ele parecia tão apático, distante, mesmo... 

— O senhor é o último...  cliente.

— Enganei a todos: Os últimos serão os primeiros!  Eu sou Jesus...


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