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Destaques

O HOMEM QUE DERRETEU

No Departamento de Estanhamento por imersão ninguém conversava mais do que o necessário. O rugido das bombas abafava qualquer palavra, e a névoa branca pairava continuamente sobre as cubas de ácido transformava homens em sombras amorfas. Quem entrava pela primeira vez, sentia que atravessava uma fronteira. A claridade desaparecia, o ar ardia nos pulmões e o cheiro acre do ácido impregnava a roupa, antes mesmo do primeiro passo. A luz do sol jamais penetrara no ambiente. As chapas de aço mergulhavam em enormes tanques de ácido clorídrico; entravam cobertas de ferrugem e, após sucessivos mergulhos, ficavam desoxidadas, brilhantes, escorregadias, prontas para o Estanhamento, no processo no processo de imersão à quente, o qual consistia no mergulho das chapas de aço, recortadas pela tesoura denominada Marta Rocha. Eram mergulhadas em estanho no ponto de fusão, e transformadas em folhas de flandres. Existia uma história nunca registrada nos relatórios da empresa: A lenda do turno de revezam...

Dilúvio

Dilúvio


A natureza não pede socorro, se vinga. (Joelmir Beting)



Um cavalo pastava mansamente na várzea, como fazem os bons cavalos. Ele não sabia, ou sabia? Que algo estava para acontecer. Ele continuava a pastar, os cavalos pastam até que seu tutor venha buscá-lo para alguma tarefa.... Puxar charrete, por exemplo, ou cavalgar com o patrão? Buscar uma boiada? Ele não sabia o que viria a fazer. Tempos difíceis viriam. Ah, ele era chamado Marrom pelo pêlo que ostentava. Assim, sua vida corria rotineiramente, como corre para bons cavalos. Aí, começou a chover, e choveu dias e dias... muita chuva no mundo de Deus. Ele não se incomodou: Chuvas vão e vêm, mas esta era diferente, não era um chuvisco, era diluvial, mesmo. A chuva cresceu o córrego, o carregou e o desgraçou no rio. O rio subiu que subiu. O rio já era mar e, na várzea pegou Marrom. Ele se foi com as águas daquele mar. Enquanto pôde, nadou, depois entregou-se cansado. deixou-se ir para os confins deste mundo d’água. Mas não era seu fim, o destino interviu: as águas levaram-no à cidade grande e na cidade, outrora Alegre agora, estava triste com o dilúvio. As águas tiveram dó do animal e o depositaram no telhado de uma casa, submersa; e, lá ele ficou inerte, inanimado, traumatizado. O cavalo parecia Kung Fu meditando. Alguém o viu, alguém o mostrou na TV. Juntaram gentes e, o doparam; dopado já estava ele de susto e medo. Numa balsa foi jogado e salvo. Mudaram seu nome de Marrom para Valente e   depois para Caramelo. Ele está feliz, a humanidade o salvou.

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