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O CERCO DOS REMÉDIOS

  O CERCO DOS REMÉDIOS Asséde Paiva Naquele tempo, (tempo do onça), doença não chegava sozinha. Vinha acompanhada de medo, rezas, palpites e uma procissão inteira de remédios caseiros. Catapora vinha pipocando igual milho na panela. Caxumba chegava inchando pescoço de menino. Coqueluche fazia a noite inteira tossir. Sarampo punha fogo no corpo. Terçol fazia o olho virar brasa. E dor de barriga então? Essa aparecia sem pedir licença, dobrando cristão em dois. Havia vento virado, nó nas tripas, morfeia etc. Mas o povo antigo não se entregava fácil, na verdade, morriam aos montes, talvez 50%. Bastava alguém espirrar e já começava a invasão das mezinhas. Primeiro entrava o chá de funcho, fumegando dentro de caneca esmaltada, com pose de general da banda: — Deixa comigo essa barriga inchada e solta! Atrás dele vinha a folha de laranjeira, calma, cheirosa, parecendo benzedeira: — O que o nervoso fez, eu desfaço... A canela e cravo chegavam se achando importantes: — Esquenta o sangue! Exp...

Dilúvio

Dilúvio


A natureza não pede socorro, se vinga. (Joelmir Beting)



Um cavalo pastava mansamente na várzea, como fazem os bons cavalos. Ele não sabia, ou sabia? Que algo estava para acontecer. Ele continuava a pastar, os cavalos pastam até que seu tutor venha buscá-lo para alguma tarefa.... Puxar charrete, por exemplo, ou cavalgar com o patrão? Buscar uma boiada? Ele não sabia o que viria a fazer. Tempos difíceis viriam. Ah, ele era chamado Marrom pelo pêlo que ostentava. Assim, sua vida corria rotineiramente, como corre para bons cavalos. Aí, começou a chover, e choveu dias e dias... muita chuva no mundo de Deus. Ele não se incomodou: Chuvas vão e vêm, mas esta era diferente, não era um chuvisco, era diluvial, mesmo. A chuva cresceu o córrego, o carregou e o desgraçou no rio. O rio subiu que subiu. O rio já era mar e, na várzea pegou Marrom. Ele se foi com as águas daquele mar. Enquanto pôde, nadou, depois entregou-se cansado. deixou-se ir para os confins deste mundo d’água. Mas não era seu fim, o destino interviu: as águas levaram-no à cidade grande e na cidade, outrora Alegre agora, estava triste com o dilúvio. As águas tiveram dó do animal e o depositaram no telhado de uma casa, submersa; e, lá ele ficou inerte, inanimado, traumatizado. O cavalo parecia Kung Fu meditando. Alguém o viu, alguém o mostrou na TV. Juntaram gentes e, o doparam; dopado já estava ele de susto e medo. Numa balsa foi jogado e salvo. Mudaram seu nome de Marrom para Valente e   depois para Caramelo. Ele está feliz, a humanidade o salvou.

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