DOIS AMIGOS, DOIS CAMINHOS
DOIS AMIGOS, DOIS CAMINHOS
Asséde Paiva
Toda grande amizade tem um ponto de partida. A deles nasceu na poeirenta rua, ainda sem asfalto, a antiga Rio–BH, ou BR 0-40.
Lucas e Gabriel tinham apenas seis anos quando brigaram pela mesma bola de gude. Em menos de uma hora, dividiam o mesmo saco de bolinhas coloridas e um picolé que derretia mais depressa do que conseguiam lamber. Naquele fim de tarde, sem perceber, haviam escolhido um ao outro para toda a vida.
Cresceram como irmãos. Na verdade, mais que irmãos, eram almas gêmeas.
Os dois amigos subiam em árvores, pescavam lambaris no córrego, soltavam pipas e sonhavam com o futuro, enquanto olhavam as estrelas deitados sobre o capô enferrujado do velho automóvel abandonado no terreno baldio.
Quem os conhecia dizia que eram dois meninos extraordinários.
Gabriel resolvia problemas de aritmética antes que a professora terminasse de escrevê-los no quadro. Tinha inteligência viva, memória impressionante e um magnetismo que fazia qualquer grupo gravitar à sua volta. Acima de tudo, era muito solidário.
Lucas era menos brilhante, porém, estudioso. Gostava de compreender as pessoas, organizava tudo à sua volta e encontrava soluções onde os outros viam apenas dificuldades. Não era charmoso. Enquanto Gabriel era um incêndio, Lucas era uma chama constante. Até que chegou a idade das escolhas.
A vida, que tantas vezes parece um rio, revelou-se uma encruzilhada.
Gabriel entrou pela porta larga. Primeiro, vieram as festas e a ilusão de liberdade. Depois, as noites intermináveis, as amizades perigosas, o dinheiro fácil e, por fim, as drogas. Sua inteligência, que poderia construir pontes, começou a erguer labirintos. Logo estava mergulhado na tragédia do tráfico, cercado de homens armados, desconfiando de todos, dormindo pouco e sonhando menos. Ganhou muito dinheiro e insistia em pagar todas as despesas, quando estava com o amigo.
Lucas nunca esqueceu a generosidade de Gabriel. Mais tarde, numa cidade distante, acolheu-o em seu alojamento, pagou suas refeições, mandou lavar o seu terno e lhe emprestou as próprias calças mais de um mês.
Como ensina o provérbio: Uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto.
Seguiam caminhos opostos, mas a amizade permanecia de aço.
Lucas escolheu a porta estreita.
Enquanto o amigo desperdiçava as madrugadas em festas, bares e boates, Lucas permanecia curvado sobre livros. Estudava à luz de velas até o amanhecer, sustentado apenas pelo café, pela disciplina e pelo desejo de progredir na vida. Seu lema era vencer ou vencer.
Aos vinte e dois anos, os destinos já pareciam escritos.
Lucas era um administrador respeitado, vestia ternos de casimira Aurora. Elegante, comandava os subordinados com firmeza e competência. Tomava decisões, às vezes dolorosas, como repreender ou demitir alguém. Sua empresa era referência em administração eficaz.
Gabriel comandava outro tipo de “organização”.
Sua palavra movimentava milhões, mas era sustentada pelo medo e obediência cega. O dinheiro chegava rápido e desaparecia com a mesma velocidade. A qualquer instante, uma bala ou uma sirene poderia encerrar tudo.
Quem observava de fora acreditava que a amizade havia terminado.
Enganava-se.
Havia um pacto silencioso entre eles.
Lucas nunca perguntou de onde vinha o dinheiro do amigo.
Gabriel jamais tentou arrastar Lucas para seu mundo.
Encontravam-se, de tempos em tempos, em pequena sala de “Snooker” escondida em rua antiga do centro da cidade. O dono fingia não os reconhecer. Era melhor para todos.
Numa dessas noites, a chuva caía fina sobre a calçada.
Lucas colocou sobre a mesa a chave do apartamento que acabara de alugar.
–– Pode usá-lo como quiser...
Gabriel pousou ao lado um molho de chaves de carro importado e uma corrente de ouro.
–– São seus! — Estou cansado da vida que escolhi. Não sei se ainda consigo voltar... mas, pela primeira vez, tenho vontade de tentar. Hoje passei pela igreja e vi senhoras adorando o Santíssimo Sacramento, ajoelhei após muitos anos.
Lucas sorriu, não com euforia, mas com esperança.
— Então você já deu o passo mais difícil.
Pela primeira vez, Lucas percebeu que o amigo parecia velho. As olheiras profundas não eram da falta de sono; eram do medo da lei.
— Está cansado? — perguntou.
Gabriel sorriu, mas era um sorriso sem alegria.
— Cansado não... cercado.
Houve um longo silêncio.
Do lado de fora, a chuva parecia lavar a cidade.
Lucas falou baixo:
— Você sempre foi o mais inteligente de nós dois.
Gabriel balançou a cabeça.
— Inteligência não salva ninguém quando falta direção.
Lucas permaneceu em silêncio.
Depois disse:
— Ainda dá tempo.
Gabriel olhou pela janela.
Um carro reduziu a velocidade em frente ao salão de sinuca. Instintivamente, sua mão procurou a cintura, onde carregava a arma e destravou o coldre
O carro seguiu adiante.
Ele respirou aliviado.
— Está vendo? — murmurou. — Você vive preocupado com reuniões. Eu vivo preocupado em voltar para casa.
Lucas respondeu com voz serena:
— O caminho largo parece mais fácil, mas vai ficando estreito até não haver saída. Aí, é tarde demais...
Gabriel permaneceu alguns segundos olhando a xícara de café.
Então ergueu os olhos.
Havia neles um brilho antigo, o mesmo do menino que corria atrás de pipas.
— Eu sei.
Fez uma pausa.
— Você escolheu a porta estreita e ganhou liberdade. Eu escolhi a porta larga, a da perdição, e construí minha própria prisão.
Sorriu de leve.
— Mas existe uma coisa que nunca mudou.
Lucas esperou.
— Se tudo desabar esta noite... você ainda atenderá o meu telefonema.
Lucas não respondeu.
Estendeu apenas a mão sobre a mesa.
Gabriel apertou-a com força.
Dando um salto atrás no espaço-tempo, naquele instante desapareceram o executivo e o desviante.
Restaram apenas dois meninos de seis anos, sentados na poeira de uma rua esquecida pelo tempo, dividindo uma bola de gude e um picolé.
Na amizade verdadeira, um amigo nem sempre consegue impedir que o outro se perca. Apenas deixa uma luz acesa, caso um dia ele decida voltar.

Very good! Thanks!!1
ResponderExcluirMuito bom, Assede
ResponderExcluirBaseado em fatos
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