MARCHA À RÉ NO TEMPO
— Você acha que é possível viajar no tempo? Acho que sim. E não falo em velocidade supra luz.
Um velho, manquitola, de olhos baixos, com ar cansado, portava um guarda-chuva semiaberto, e barbatana quebrada. Aparentava, por agruras da vida, ser mais idoso do que realmente era. Não importa o passado desse senhor, só o hoje, agora. Certo é que estava morrendo... morrendo de amor. Fora muito amado pelos pais, pelas mulheres e sufocado pelo amor dos filhos. Enfim, não suportou o sufoco e fugiu de casa para morar nas ruas. Será que ele pensava em alguma coisa? Que pensava? Teria seus neurônios em bom estado? Logo que dobrou a rua Treze de Maio parou indeciso: “Ia à frente ou à esquerda...” Decidiu ir pela esquerda, pois, assim ficava à sombra dos edifícios contra o sol. E o Largo da Carioca estava no mormaço de verão. Gente indo e vindo em direções várias. Ele ensimesmado, nem ligou. Também, não se deu conta da nuvem negra que lentamente caminhava no céu, qual lagartixa num teto. A nuvem fazia sombra ao sol e trazia frescor estranho a tanta quentura. Era um cúmulo-nimbo com forma de gigantesco chumaço de algodão doce. Nenhum pássaro se via... E o velhote sem dar a mínima para ninguém ou, para a vida que passava. Perto do Liceu Literário, rendeu-se ao cansaço e sentou-se no primeiro degrau, recostando-se na pilastra da entrada. A pilastra o queimava. Fechou os olhos e mergulhou em profundo torpor. Dormia... De repente, a nuvem ficou muito baixa e se transformou em nevoeiro espesso, escuro, assustador. O calor tinha o bafo do dragão. O Largo da Carioca, o mosteiro de Santo Antônio, prédios, monumentos e carros desapareceram na tessitura que a todos diluiu, incluindo o velho encarquilhado.
Parcamente, se viam vultos. Os carros acenderam faróis e buzinavam e se chocavam. Num ligeiro desvelar da estranha nuvem, um jovem materializou-se ao lado do velho e ensaiou caminhar. “Que rumo tomaria?” Rumo nenhum, não era opção, movimentou-se para não ser estátua. Adiante, ouviu-se o ranger dos freios do bonde de Santa Teresa, quase o atropelou.
Vamos acompanhá-lo com olho de Hórus (que tudo vê).
Ele foi mancando ao Tabuleiro da Baiana, onde uma negra de turbante e saia rodada, baiana certamente, abancada ao meio-fio, vendia quitutes. Apalpou o bolso, sacudiu moedas, retirou uma.
— Quanto custa a cocada?
A baiana continuou a embrulhar um acarajé para outro freguês, como se nenhuma voz tivesse sido ouvida.
Ele desistiu do doce e foi ao bar, na Galeria Cruzeiro. O garçom o ignorou; passou ao lado dele várias vezes, sim, mas para atender a outros; ele, não.
Dos bondes, subiam e desciam passageiros e mequetrefes, todos passando e esbarrando nele sem educação. Ele enxugou o suor na manga da camisa e decidiu ir ao outro lado da praça, esconder-se do sol sob a marquise do Hotel Avenida, o grande prédio do Largo da Carioca.
Ciente de que o tempo era escasso, decidiu visitar, na rua São José, o sebo de mesmo nome. Certamente, compraria um livro usado, bom e barato. Matutando sobre os vaivéns da vida, atravessou a Avenida Rio Branco. No cruzamento da Rio Branco com a Rua da Assembleia desviou de ciganas ariscas, alegres e de saias estampadas, que liam a sorte. A chovixani (maga) o viu, e acenou para ele.
— Você já atravessou a porta.
As outras ciganas não se deram conta da passagem...
Na livraria, agachou-se entre estantes e vãos, perto dos romances franceses, onde se lia, nas lombadas, títulos de Alexandre Dumas; Du Terrail; Victor Hugo e outros. Gostava dos autores franceses, de temas de capa e espada e de piratas.
Ele consultou suas finanças; infelizmente, não dava para comprar os Três mosqueteiros, de Dumas. Contentou-se em olhar e suspirar. Um dia, ele haveria de ler Capitão Blood, de Rafael Sabatini; e todos os de Tarzan da coleção Terramarear.
“Vida dura de pobre, só pode desejar”.
Hora de fugir para bem longe, a Rodoviária da Praça Mauá o esperava, distante. Achou que devia pegar um táxi, só achou, não pegou, porque os taxistas, portugueses, bigodudos, o recusaram ou o ignoraram...
Decidiu comer uma coxinha. Não foi atendido pela garçonete, que passava através dele. Após a rejeição, decidiu ir a pé à Rodoviária, pela Rua Gonçalves dias, atravessando a Avenida Rio Branco, a Rua Floriano Peixoto e muitas outras. Em diversos bares, fregueses comiam e bebiam, só não vendiam para ele.
Estava faminto, ao ver um garoto pedinte a seu lado, estendeu-lhe a moeda, mas foi ignorado pelo menino.
“Tanta gente insensível...”
Procurou o próprio reflexo no vidro espelhado da relojoaria. Viu a rua, os bondes, os passantes... menos a si mesmo. Piscou duas vezes. Tornou a olhar. No lugar onde deveria estar seu outro eu havia apenas uma sombra difusa.
Por fim, e após a rua Acre, estava na Rodoviária Mariano Procópio. Um cachorro, vira-lata dormitava, mas assustou-se e fugiu ganindo. Os pombos levantaram voo antes que ele chegasse, formando um círculo sobre sua cabeça, mas nenhum pousou perto dele. Entrou na fila para comprar o bilhete. No guichê, o bilheteiro dava preferência a outros, mesmo os de trás dele.
“Que desaforo!”
Desesperado por não conseguir comprar passagem para a sua terra, achou que perderia o ônibus. “Ah, isto não!” Dirigiu-se ao setor de embarque. Aproveitando-se da distração do motorista, e sem que ninguém o percebesse, entrou e sentou-se no banco da frente. O companheiro de viagem ao lado, também não lhe deu a mínima, sequer virou o rosto para ele que, nesta altura, estava se sentindo invisível.
Enquanto isto, a nuvem ou nevoa, no Largo da Carioca, finalmente esvaneceu. O bom velhinho (do início desta história) continuava recostado no pilar do Liceu, placidamente. Com o tempo passando, o idoso, meio curvado, acabou por chamar a atenção de transeuntes. Um, desconfiado chegou bem perto, e tentou acordá-lo dando-lhe uma sacudidela.
Ele desabou... Estava morto.
E no ônibus, o último passageiro sentou-se no que seria uma vaga...
“Ih! este cara vai sentar-se no meu colo”.
O ônibus arrancou lentamente da Rodoviária Mariano Procópio. Pela janela, o rapaz viu o Rio de Janeiro afastar-se, como quem fecha um livro. Pela primeira vez desde que surgira entre a névoa, sentiu uma estranha paz. Não percebeu que sua imagem também se tornava menos nítida, como uma fotografia antiga perdendo as cores. O passageiro que se sentara sobre a vaga onde ele acreditava estar continuava olhando pela janela, alheio à sua presença.
No Largo da Carioca, curiosos cercavam o corpo do velho. Alguém fez o sinal da cruz. Outro chamou uma ambulância, tarde demais. O guarda-chuva, de barbatana quebrada, permanecia caído ao lado do primeiro degrau do Liceu Literário, enquanto a última réstia da névoa se dissolvia ao sol.
Talvez ninguém viaje ao futuro. Talvez, no instante da morte, cada homem faça apenas uma longa marcha à ré, revisitando, invisível, os caminhos por onde sua alma ainda desejava passar. E, quando alcança o ponto de partida, o tempo fecha o círculo, e o viajante entra na vida eterna.

Very good!
ResponderExcluirCapa maravilhosa
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