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ABIGEATO FATÍDICO

 ABIGEATO FATÍDICO


Asséde Paiva & Chat GPT


Naquela época, as fazendas da região de Paula Lima e adjacências ainda guardavam sombras antigas e lendas urbanas. O gado pastava livre pelos morros, pastos e vargens. Os homens trancavam as portas cedo, não por medo de ladrões comuns, mas por causa das histórias que corriam de boca em boca. Diziam que vacas desapareciam sem deixar rastros, e que os abigeatários acabavam encontrando um destino pior que a prisão. Muitos diziam que já caminhavam para o inferno antes mesmo de morrer. Fazendeiros passaram noites em vigília, com armas na mão, à espera dos ladrões, nas eles pareciam adivinhar e roubavam noutro lugar. Eram espertos e tinham informantes tão desonestos quanto eles. Às vezes, os bandidos abatiam e descarnavam os animais no local. No dia seguinte, o dono só encontrava a carcaça, sangue e vísceras.

Foi numa noite sem lua que Geraldo e Nicanor, notórios ladrões de gado na região (Zona da Mata), resolveram roubar uma rês branca pertencente ao velho coronel Amaral. A novilha era tão altiva, deu tanto trabalho que a chamaram de Figurona. Conduziram-na amarrada a uma corda, por uma trilha sinuosa, esquecida que atravessava um capão de mato conhecido como Grota do Enforcado. A novilha caminhava em silêncio, tensa, mas seus olhos pareciam refletir uma luz que não existia. Quando chegaram à margem de um brejo, ouviram atrás deles o som de cascos de disparada de muitos animais. Parecia o estouro de uma boiada. Pensaram tratar-se de rezes desgarradas. Quando deram meia-volta, avistaram dezenas de animais: bois, vacas, bezerros, todos negros surgindo da escuridão, com os olhos coriscantes em brasas. Eles cercaram os ladrões, sem emitir um mugido sequer e, sem atacá-los, apenas sopravam o chão e escarvavam a terra com violência. Era de causar medo.

Nicanor, o mais jovem dos larápios, tentou correr. Seu grito ecoou pelo vale quando algo invisível o derrubou entre os juncos. Geraldo, tomado pelo pânico, largou a corda que jungia a novilha e disparou mata adentro. Correu até o amanhecer. Quando os moradores o encontraram, estava sentado à beira da estrada, e os cabelos completamente embranquecidos. Tremendo, repetia apenas uma frase: "O boi sem cabeça..." Nunca voltou a falar coisa com coisa. Ele convivia com seus demônios. Terminou os dias no hospício de Barbacena, diz a lenda. De Nicanor, apenas sua faca apareceu dias depois, coberta por uma ferrugem escura, que ninguém soube limpar.

Anos mais tarde, um tropeiro vindo de Coronel Pacheco, afirmou ter visto algo que reforçou a fama sinistra da Grota do Enforcado. Ao atravessar o local depois da meia-noite, encontrou uma boiada parada no meio da neblina. Os animais pareciam feitos de sombra e mantinham a cabeça baixa, como se aguardassem uma ordem. Entre eles caminhava um homem de roupas rasgadas, arrastando correntes enferrujadas. Quando o tropeiro o chamou, a figura levantou o rosto. Era um semblante pálido e sem olhos. No instante seguinte, a visão inteira dissolveu-se no ar.

Dembá, curimbeiro afamado em toda a região, levou oferendas ao portão do calunga. Fez ebós, riscou pontos, firmou velas e despachou trabalhos em sete encruzilhadas. Nada mudou. Padre Waldemar, reputado exorcista, celebrou missas, rezou terços, aspergiu água benta e benzeu a Grota do Enforcado. Também fracassou. A assombração parecia não pertencer nem ao reino dos vivos nem ao dos mortos, como se obedecesse a uma justiça mais antiga que a dos homens e mais severa que a dos espíritos.

O relato espalhou-se pelas fazendas e ganhou novos detalhes. Alguns juravam que, em certas madrugadas, surgiam marcas de cascos ao redor do brejo. As pegadas apareciam fundas na lama, formando um círculo perfeito, mas terminavam abruptamente, como se os animais tivessem desaparecido rumo ao céu ou, afundado nas entranhas da terra. Nenhum vaqueiro conseguia explicar o fenômeno. Sobrava medo naquela terra.

O próprio coronel Amaral, homem valente, pouco dado a superstições, mudou de comportamento depois do ocorrido. Conta-se que mandou erguer uma pequena cruz de aroeira na entrada da trilha e determinou que ninguém passasse pela Grota do Enforcado após o pôr do sol. Quando lhe perguntavam a razão, limitava-se a responder, com a voz embargada: “Há dívidas que a justiça dos homens não cobra, mas a noite obra.”

Havia ainda quem afirmasse ter visto a própria Figurona vagando pelos pastos, nas madrugadas de cerração. Ela surgia imóvel sobre algum espigão de morro, branca como luar derramado sobre a relva. Os cães não latiam, os cavalos empinavam assustados e os bois se afastavam em silêncio. Quando alguém tentava aproximar-se, Figurona esvanecia lentamente na névoa, como se nunca tivesse pertencido ao mundo dos vivos. Sobre a boiada não falavam, persignavam e mudavam o rumo da prosa.

Certa feita, um capataz de nome Firmino, homem conhecido por zombar de assombrações, resolveu desafiar a fama da grota. Numa noite escura, munido apenas de um lampião e de um velho revólver, Colt .45, seguiu pela trilha proibida. Horas depois, voltou cambaleando, com o rosto lívido e o olhar perdido. Contou que ouvira um tropel vindo da névoa e vira passar diante dele uma imensa boiada espectral. Firmino jurava ter reconhecido, liderando a boiada, a novilha Figurona. Nunca mais gracejou sobre a Grota do Enforcado, e até o fim da vida fazia o sinal da cruz sempre que ouvia mugidos na madrugada.

Desde então, ninguém mais ousou furtar uma única cabeça de gado das redondezas. 

Alguns dos mais velhos sustentavam uma explicação ainda mais sombria. Diziam que a boiada espectral não era composta apenas por assombrações comuns, mas pelas almas de todos os animais abatidos com crueldade ou roubados de seus donos ao longo de gerações. Cada casco que retinia na madrugada representava uma injustiça não reparada. E Figurona, por ter escapado ao destino do cutelo, tornara-se a guia daquele rebanho de sombras, conduzindo os culpados ao tribunal silencioso dos mortos.

E, nas noites de luar enfermiço, alguns juravam ouvir o estouro da boiada, atravessando a Grota do Enforcado. Entre os cascos invisíveis, distinguiam o mugido triste de uma novilha branca e, o grito distante de um homem pedindo socorro. Diziam ser Nicanor, condenado a acompanhar para sempre Figurona. Diziam também que, quando o vento soprava no brejo, era possível ouvir uma advertência vinda das trevas: 

"O que foi roubado na terra volta para a terra... e o ladrão vai junto."

Se é verdade ou não, ninguém sabe. Porém, desde aqueles tempos, nenhum homem de juízo atravessava a Grota do Enforcado depois da meia-noite. E quando uma rês desaparecia pelos campos de Paula Lima, os mais velhos apenas baixam a voz, persignam-se e murmuram: "Que Figurona cuide dela."

Soneto:

Na Grota do Enforcado, em noite escura,
Dois homens conduziam a novilha;
Buscavam no furto a breve maravilha,
Sem ver da própria sorte a sepultura.
Surgiu da treva a negra boiada impura,
De olhos em brasa e espectral matilha;
Tremia o brejo, estremecia a trilha,
Como se o inferno abrisse a fechadura.
Nicanor afundou-se em negro espanto,
E Geraldo, de horror embranquecido,
Levou por toda a vida o mesmo pranto.
Desde então, pelo vale adormecido,
Ouve-se à noite um lastimoso canto:
— Quem rouba gado, leva o bramido.

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