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Amenta da discórdia

Asséde Paiva & Chat GPT


Na antiga vila de Rosário, cercada por montes cobertos de neblina, havia um costume tão velho quanto a própria igreja: após a celebração do Dia de Finados, os paroquianos ofereciam ao padre uma pequena amenta — contribuição em dinheiro e mantimentos — como sinal de gratidão pelas missas rezadas e celebrações em favor das almas dos falecidos.

Durante décadas, o costume jamais fora esquecido.

Mas naquele ano, por descuido, avareza ou simples distração coletiva, ninguém se lembrou da amenta devida ao padre Arruda. Isso foi lamentável...

A missa dos Finados fora longa e solene. O sacerdote mencionara centenas de nomes, alguns já apagados da memória dos próprios descendentes. O cemitério era do tempo da escravidão. O padre Arruda rezara com fervor, depois, acompanhado pelos paroquianos fora ao campo santo e aspergira água benta sobre as sepulturas, enquanto caminhara sob um sol inclemente.

Ao regressar à sacristia, retirou os paramentos e aguardou a amenta.

Esperou uma hora.

Depois duas.

Ninguém apareceu.

Seu semblante endureceu.

Ao cair da noite, reuniu os fiéis que ainda permaneciam no adro da igreja.

— Esqueceram-se da obrigação devida! — bradou.

Os presentes se entreolharam.

As benzedeiras baixaram a cabeça.

Outros fingiram não compreender a mensagem.

A indignação do padre transformou-se em cólera.

Ergueu o crucifixo e ameaçou tonitruante:

— Se a lembrança dos mortos vale menos do que algumas moedas, então que os mortos cobrem a dívida!

Um vento repentino atravessou a praça.

As velas tremularam.

Os sinos começaram a balançar sozinhos.

Apagaram-se as luzes do coreto.

O padre continuou:

— Não rezarei mais pelas almas abandonadas! Que elas retornem do plano espiritual ou do Vale das Sombras, ao plano dos vivos e exijam aquilo que lhes foi negado!

As palavras ecoaram pelas casas, pelos morros, à cidade dos mortos.

Mas a ira do padre ainda não estava satisfeita. Tomado por um ressentimento que lhe obscurecia o juízo, atravessou a praça e dirigiu-se ao cemitério sob a luz vacilante da lua cheia. Os poucos curiosos que o seguiram à distância ficaram estarrecidos. Diante dos túmulos, ele passou a arrancar flores, derrubar vasos, apagar velas e quebrar imagens de santos que ornamentavam as sepulturas. Era o iconoclasta em ação. Anjos de gesso e imagem de são Benedito caíram sob golpes da clava. As cruzes de madeira tombavam sob seus golpes, enquanto ele repetia, entre dentes cerrados:

— Se os vivos esqueceram os mortos, que os mortos também sejam esquecidos!

A fúria cresceu ainda mais. Com um pedaço de ferro encontrado junto ao portão, destruiu ícones de gesso, partiu placas comemorativas e espalhou pelo chão os enfeites cuidadosamente colocados por famílias, que visitavam seus entes queridos, no dia em que os mortos têm licença para virem à terra. O barulho dos cacos dos vasos estilhaçados e dos pedaços de madeira ecoava pela noite silenciosa. Alguns tentaram contê-lo, mas recuaram ao ver seu semblante vermelho, transtornado e iluminado apenas pelo brilho esbranquiçado da lua.

Na manhã seguinte, o cemitério parecia ter sido atingido por uma tempestade e ventos, em fúria. Cruzes caídas, imagens mutiladas e flores esmagadas compunham um cenário desolador. Muitos habitantes choraram ao encontrar os jazigos de seus familiares profanados. E foi justamente naquela noite que começaram os primeiros fenômenos estranhos. Alguns juravam ter visto sombras caminhando entre os túmulos destruídos; outros, ouviam lamentos vindos das sepulturas danificadas. A vila inteira passou a acreditar que, mais do que uma maldição, algo havia sido despertado pela cólera imprudente do padre Arruda.

Começaram os estranhos acontecimentos.

Primeiro vieram os sonhos.

Os moradores passaram a sonhar com parentes falecidos sentados à mesa da cozinha, observando-os em silêncio.

E sonhavam com antigos escravos.

Depois surgiram os ruídos.

Passos nos corredores.

Portas abrindo sozinhas.

Talheres tilintando nas madrugadas.

Nada violento.

Apenas perturbador.

Como se alguém quisesse ser lembrado.

A situação piorou quando começaram os prejuízos.

Ferramentas desapareciam.

Animais fugiam dos currais.

Esterco era jogado na panela de doce de leite, no fogão.

Colheitas inteiras apodreciam sem explicação.

Relógios paravam exatamente à meia-noite.

A população entrou em pânico. 

E rezavam o Creio em Deus Pai, em procissões.

Dizia-se que as almas vagavam pela vila cobrando a dívida esquecida.

O comerciante Elias Aljubarrota jurava ter visto sua avó morta examinando os livros-caixa da venda.

A professora Matilde dos Cascais encontrou cartas antigas espalhadas pelo chão da escola, embora estivessem guardadas em um baú de carvalho, desde a morte do seu amado esposo.

O ferreiro afirmava ouvir marteladas na bigorna, vindas do cemitério todas as noites.

Meses depois, a vila parecia viver sob um estranho cerco invisível.

E não eram apenas parentes conhecidos que apareciam nas visões noturnas. Muitos moradores passaram a sonhar com homens e mulheres negros, vestidos em roupas antigas, marcados pelo trabalho forçado. Surgiam em silêncio, caminhando entre canaviais que já não existiam ou carregando pesadas cargas por estradas apagadas pelo tempo. Ninguém sabia dizer seus nomes, mas todos despertavam com a certeza de terem encontrado pessoas reais. Também apareciam tropas de burros e seus tropeiros negros, emagrecidos pela fome e labor.

O velho cemitério guardava sepulturas sem inscrição, enterramentos anônimos de uma época em que nem todos os mortos recebiam cruz, lápide ou memória. Ali repousavam escravizados cujas histórias haviam sido apagadas, homens e mulheres que trabalharam nas fazendas da região e desapareceram sem deixar descendentes que os recordassem. Quando o padre Arruda profanou o campo-santo, dizia o povo, perturbou não apenas os mortos conhecidos, mas também aqueles que há muito aguardavam uma oração que jamais chegou.

Alguns afirmavam ouvir, nas madrugadas, o som distante de correntes arrastando-se pela estrada que conduzia ao cemitério. Outros juravam ver pequenas luzes vagando entre as covas sem nome. Verdade ou imaginação, ninguém mais ousava tratar com desprezo a memória dos antigos, pois compreenderam que a injustiça cometida contra os vivos não termina necessariamente com a morte.

Foi então que dona Quitéria do Quinquim, a mulher mais velha do lugar, resolveu agir.

Com noventa anos e uma lucidez admirável, procurou o padre Arruda. Encontrou-o sozinho na igreja, ajoelhado em profunda contrição.

— Padre, o senhor amaldiçoou o povo deste lugar?

— Apenas deixei que os mortos cobrassem justiça.

A anciã, aliás beata de mão cheia, balançou a cabeça negativamente.

— Não. Os mortos não cobram moedas. Quem cobra moedas são os vivos.

A frase atingiu o sacerdote como uma pedrada.

Durante longos minutos, permaneceu em silêncio, mas mexendo os lábios. Rezava?... Pela primeira vez ele percebeu que sua ira falara mais alto que sua fé.

Na semana seguinte, convocou todos os moradores. Subiu ao púlpito e declarou:

— Errei.

O espanto percorreu a nave.

— Nenhuma alma foi enviada por Deus para atormentar os vivos. O tormento nasceu do medo, da culpa e do ressentimento que plantei entre vocês.

Em seguida, pediu perdão.

Os moradores também reconheceram o descuido.

Reuniram uma generosa contribuição para restaurar o cemitério, trocar ícones e ajudar famílias necessitadas, além de celebrar missas pelos falecidos.

A pouco e pouco, os fenômenos cessaram, os sonhos desapareceram.

Os ruídos silenciaram e a paz voltou à vila.

Mas os mais velhos ainda contam que, nas noites de Finados, uma brisa gelada atravessa o cemitério e desce silenciosamente ao povoado, como se trouxesse lembranças do que aconteceu naquela noite.

E quem a sente recorda uma lição jamais esquecida: Os mortos precisam de memória, os vivos precisam de caridade, e os sacerdotes precisam de humildade.


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