Os Invasores
Os Invasores
Asséde Paiva & ChatGPT
Na vila de Santa Eulália dos Cascais — dessas que têm mais fé do que farmacopeia — começou tudo com uma coceira.
Primeiro, dona Almerinda acordou com a sensação de formigas invisíveis caminhando pelos seus braços. Depois, seu Norberto jurou ter ouvido passos miúdos no forro da casa, como se ratinhos calçassem tamancos. Em três dias, metade da vila estava acometida de sintomas variados: ardor nos olhos, tosse, palpitações repentinas, arrepios fora de hora e uma tristeza que vinha do nada, como nuvem sem céu. Coisas estranhas aconteciam...
— São invasores — decretou o fígaro Epitácio, que, na hemeroteca, lia jornais velhos, revistas ensebadas e, por isso mesmo, se julgava atualizado.
Mas que invasores? Ninguém os vira. Não havia pegadas, nem sombras, não havia estrangeiro hospedado na pensão de dona Gertrudes. Ainda assim, estavam ali — invisíveis, insinuantes, perturbadores.
A primeira providência veio da farmácia homeopática do dr. Belisário, homem magro e paciente como uma ampulheta. Ele distribuiu glóbulos brancos em frasquinhos de vidro, receitando arsenicum album, belladonna, noz vômica, allium sativa e outras palavras que soavam mais latinas que o latim da missa.
— Quanto menor a dose, maior a força — explicava, piscando com autoridade científica.
Os mais aflitos tomavam três bolinhas sob a língua e aguardavam o milagre microscópico.
Seu Praxedes, o boticário, cético, não acreditava em cura Hahnemanniana: similia similibus curantur bom para os que acreditam em água com açúcar.
–– É uma farsa, é placebo, dizia torcendo a cabeça em não definitivo.
Digo e repito: A cura está na alopatia.
Não convencida nem satisfeita, dona Filomena — parteira e conhecedora das folhas — entrou em cena com sua fitoterapia milenar. Preparou infusões de erva-cidreira, dormideira, guaco, mastruz, picão e casca de angico. A praça passou a cheirar a mato fervido. O povo bebia os chás em silêncio respeitoso, como quem ingere mezinha milagrosa.
— O que vem da terra, à terra devolve o mal. – Ela dizia soprando a fumaça esverdeada: saravá mizifi!
Havia quem afirmasse que os invasores não eram bactérias nem micróbios ou vírus: eram espíritos desgarrados, atraídos por alguma rachadura moral da vila. Foi quando chamaram dona Ritinha Benzedeira, que morava na beira do rio e conversava com orixás e santos como quem troca receitas.
Com um ramo de arruda na mão direita e um terço na esquerda, percorreu as casas murmurando rezas antigas, misto de latim mal lembrado e sussurro indígena.
Jacy, o cambono, em dia de gira, dizia ver larvas astrais subindo nas paredes das casas.
— Sai, coisa ruim! Aqui não é teu pouso! Invocava Xapanã/ Obaluaiê, o orixá da cura.
Corre gira sem parar
Se ele corre os quatro cantos
É para seus filhos ajudar.
As galinhas não cacarejavam. Os cachorros pararam de latir. Alguns juravam ter visto a sombra do mal encolher-se na esquina.
Ainda assim, o medo persistia. Surgiram superstições novas e antigas: penduraram ferraduras nas portas, espalharam sal grosso nas janelas, evitaram varrer a casa depois do pôr do sol. Ninguém mais passava debaixo da escada do coreto. À meia-noite, fechavam-se as venezianas com pressa.
E, curiosamente, à medida que cada qual acreditava mais firmemente em seu remédio — fosse glóbulo, chá, reza ou ferradura — os sintomas começaram a rarear.
Dona Almerinda já não sentia as formigas invisíveis. Seu Norberto voltou a dormir sem ouvir tamancos no forro. O barbeiro Epitácio declarou vitória contra forças estrangeiras jamais identificadas.
Numa tarde morna, reuniram-se na praça para celebrar a expulsão dos invasores. O dr. Belisário falava em equilíbrio energético; dona Filomena atribuía o feito às propriedades depurativas das ervas; dona Ritinha agradecia aos santos; o barbeiro creditava tudo à vigilância patriótica da vila e no poder do pensamento positivo.
Foi então que o professor Antero, recém-chegado e homem de livros recentes, arriscou uma hipótese:
— E se os invasores fossem apenas o medo? Histeria coletiva... Ela entra sem bater, multiplica sintomas, ocupa pensamento... e vai embora quando encontra resistência mental e espiritual.
Houve silêncio. Não era explicação tão pitoresca quanto vírus, espírito ou micróbio estrangeiro. Mas tinha seu peso.
Dona Ritinha sorriu, sábia:
— Medo também é coisa que se benze.
E todos riram, meio aliviados, meio convencidos de que, no fundo, cada cura carrega um tanto de ciência, um tanto de natureza, um tanto de fé — e um tanto de imaginação.
Acrescenta-se que, nos dias que se seguiram, cada morador passou a contar a história à sua maneira, como se a verdade fosse um espelho quebrado em muitas lascas. Uns garantiam que viram vultos esgueirando-se pelas ruas na madrugada; outros juravam que sentiram um vento frio atravessar a casa sem abrir porta nem janela. Houve até quem afirmasse que, no instante exato em que dona Ritinha ergueu o ramo de arruda contra o céu, uma estrela cadente riscou o horizonte, sinal inequívoco de que alguma coisa — visível ou não, batera em retirada. E assim, entre lembranças aumentadas e certezas inventadas, a vila acabou convencida de que os invasores existiram de fato, pois nada persiste tanto quanto uma fábula.
O povo do arraial de Santa Eulália dos Cascais, agora, dormia tranquilo. Não porque soubesse exatamente o que se passou, mas porque, unidos em suas crenças, os viventes aprenderam a expulsar o que não compreendiam repetindo o ensalmo: Vade retro satana!

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