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Destaques

Os Invasores

  Os Invasores Asséde Paiva & ChatGPT Na vila de Santa Eulália dos Cascais — dessas que têm mais fé do que farmacopeia — começou tudo com uma coceira. Primeiro, dona Almerinda acordou com a sensação de formigas invisíveis caminhando pelos seus braços. Depois, seu Norberto jurou ter ouvido passos miúdos no forro da casa, como se ratinhos calçassem tamancos. Em três dias, metade da vila estava acometida de sintomas variados: ardor nos olhos, tosse, palpitações repentinas, arrepios fora de hora e uma tristeza que vinha do nada, como nuvem sem céu. Coisas estranhas aconteciam... — São invasores — decretou o fígaro Epitácio, que, na hemeroteca, lia jornais velhos, revistas ensebadas e, por isso mesmo, se julgava atualizado. Mas que invasores? Ninguém os vira. Não havia pegadas, nem sombras, não havia estrangeiro hospedado na pensão de dona Gertrudes. Ainda assim, estavam ali — invisíveis, insinuantes, perturbadores. A primeira providência veio da farmácia homeopática do dr. Belisá...

O SICOFANTA

 O SICOFANTA

Asséde Paiva & Chat GPT


O Sicofanta da Rua Direita, na velha cidade de São Sebastião do Alto das Lages — dessas que vivem mais de cochichos do que de fatos — morava Anselmo Bragança, homem de fala doce, sorriso servil e espinha elástica. Não tinha ofício definido, mas ocupava todos os espaços. Chamavam-no, à boca pequena, de sicofanta, mentiroso de alto coturno. 
Anselmo não discordava de ninguém; apenas dos ausentes e criava eventos impossíveis. Era homem do tititi. 
Ele tinha cultura de sovaco, na presença do prefeito, citava trechos de O Príncipe, de Maquiavel, como se fossem motos e anexins da avó: 
— Governar é uma arte para poucos, excelência! — dizia, inclinando o corpo num ângulo que beirava o impossível. Ele um puxa-saco inveterado.
 Diante do padre, tornava-se místico, quase um personagem de Os Irmãos Karamazov, com olhos marejados e voz contrita: — A alma humana é um abismo. Só a graça nos sustenta. Já na mesa do juiz, citava Ulpiano e Papiniano, com uma desenvoltura que faria vergonha a qualquer bacharel: — Honeste vivere, neminem laedere suum cuique tribuere. [Viver honestamente, a ninguém ofender e dar a cada um o seu]. Prolatava como quem recita um salmo. e todos ficavam embasbacados. Mas, bastava atravessar a Rua Direita para que o discurso se metamorfoseasse: Na venda de secos e molhados de seu Isidoro, ele era outro e desancava: — O prefeito? Um vaidoso. O padre? Ingênuo. O juiz? Teórico de gabinete. Eram farinha do mesmo saco... 
E assim, Anselmo sobrevivia — não por talento, mas por elasticidade moral. Certo dia, porém, a cidade decidiu homenagear seus “cidadãos exemplares”. O nome de Anselmo surgiu por insistência dele mesmo, claro, que sugerira discretamente sua própria indicação a cada membro da comissão. Era só blá blá blá, ao pé do ouvido. Um drinque também ajudava.
A cerimônia foi marcada para a praça central. Era 9 de abril, de 19***, dia de sol ofuscante. O coreto, na Praça Brasil, estava todo enfeitado, a banda afinada, tocava um dobrado. O Prefeito discursou, o padre W*** abençoou, o juiz assentiu gravemente, enquanto ajustava a gravata borboleta. 
Chamaram Anselmo ao proscênio ou palco. Ele subiu leve, sorridente, serelepe, pronto para a metamorfose final — a do homem virtuoso, de bem, caráter sem jaça..., mas então ocorreu o improvável. O jovem tipógrafo da cidade, cansado das intrigas que Anselmo espalhara, distribuiu panfletos contendo frases do homenageado — cada uma dita em ambiente diverso, cada qual contradizendo a outra. Ali estavam, lado a lado, suas palavras sobre o prefeito, o padre, o juiz. Todas elas verdadeiras, ou melhor: todas procedentes, ditas repetidas vezes pelo boquirroto. O murmúrio cresceu como enxame. O vexame em andamento. 
Anselmo tentou falar. Abotoou o paletó e sorriu. Citou Melanchthon estropiado: “A ignorância é a noite da alma.” — Ninguém quis ouvi-lo. — O padre fitava o chão. Anselmo evocou o princípio fundamental de Direito: Unicuique suum. [A cada um o seu]. — O juiz pigarreava constrangido. 
Foi a primeira vez que Anselmo não encontrou espelho onde se refletir. Ele desceu do coreto sob aplausos protocolares, que soavam como chuva em telha velha: muito barulho, nenhuma acolhida. Ouviram-se algumas discretas vaias. 
Naquela noite, ele, sozinho em casa, olhou-se no espelho e, pela primeira vez, não soube que personagem vestir: não havia máscara adequada. Descobriu, tardiamente, que o sicofanta é um ator que desaprende o próprio rosto: mente, tergiversa e não se envergonha. Vive em outro plano psíquico.
Na manhã seguinte, a cidade já tinha outro assunto. Sempre há. Anselmo era página virada e não voltou à Rua Direita com a mesma leveza. Caminhava como quem carrega um peso invisível — uma fantasma de si mesmo, em praça pública: um homem curvado e sem máscara... 
E desde então, alguns juravam que Anselmo tentou reabilitar-se. Falava menos, escutava mais, ensaiava uma sobriedade quase penitente. Mas havia no gesto contido algo de cálculo, como se até o silêncio fosse estratégia. A cidade, calejada, já não lhe concedia o benefício da dúvida. Aprendera que a palavra do sicofanta era moeda falsa: podia brilhar ao sol, mas não resistia ao tilintar da verdade. 
Quando alguém elogiava outrem em excesso, o povo sussurrava: — Cuidado! Pode ser da escola de Anselmo Bragança. 
Melissa Abelha Flores rompeu o noivado, dizendo-lhe não gostar de zangão de ferino ferrão. 
O sicofanta, quando desmascarado, não perde apenas a reputação — perde o álibi da própria consciência. 
E assim, na velha São Sebastião do Alto das Lages, Anselmo Bragança permaneceu vivo, mas reduzido à própria sombra, aprendera tarde demais que quem faz da palavra instrumento de lisonja termina prisioneiro do próprio eco — e que a pior solidão não é a de ser desmentido em praça pública, mas a de já não saber diante do espelho, qual face realmente é a sua. 
A pessoa não muda é a máscara que cai.

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