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Destaques

O HOMEM QUE DERRETEU

No Departamento de Estanhamento por imersão ninguém conversava mais do que o necessário. O rugido das bombas abafava qualquer palavra, e a névoa branca pairava continuamente sobre as cubas de ácido transformava homens em sombras amorfas. Quem entrava pela primeira vez, sentia que atravessava uma fronteira. A claridade desaparecia, o ar ardia nos pulmões e o cheiro acre do ácido impregnava a roupa, antes mesmo do primeiro passo. A luz do sol jamais penetrara no ambiente. As chapas de aço mergulhavam em enormes tanques de ácido clorídrico; entravam cobertas de ferrugem e, após sucessivos mergulhos, ficavam desoxidadas, brilhantes, escorregadias, prontas para o Estanhamento, no processo no processo de imersão à quente, o qual consistia no mergulho das chapas de aço, recortadas pela tesoura denominada Marta Rocha. Eram mergulhadas em estanho no ponto de fusão, e transformadas em folhas de flandres. Existia uma história nunca registrada nos relatórios da empresa: A lenda do turno de revezam...

O SICOFANTA

 O SICOFANTA

Asséde Paiva & Chat GPT


O Sicofanta da Rua Direita, na velha cidade de São Sebastião do Alto das Lages — dessas que vivem mais de cochichos do que de fatos — morava Anselmo Bragança, homem de fala doce, sorriso servil e espinha elástica. Não tinha ofício definido, mas ocupava todos os espaços. Chamavam-no, à boca pequena, de sicofanta, mentiroso de alto coturno. 
Anselmo não discordava de ninguém; apenas dos ausentes e criava eventos impossíveis. Era homem do tititi. 
Ele tinha cultura de sovaco, na presença do prefeito, citava trechos de O Príncipe, de Maquiavel, como se fossem motos e anexins da avó: 
— Governar é uma arte para poucos, excelência! — dizia, inclinando o corpo num ângulo que beirava o impossível. Ele um puxa-saco inveterado.
 Diante do padre, tornava-se místico, quase um personagem de Os Irmãos Karamazov, com olhos marejados e voz contrita: — A alma humana é um abismo. Só a graça nos sustenta. Já na mesa do juiz, citava Ulpiano e Papiniano, com uma desenvoltura que faria vergonha a qualquer bacharel: — Honeste vivere, neminem laedere suum cuique tribuere. [Viver honestamente, a ninguém ofender e dar a cada um o seu]. Prolatava como quem recita um salmo. e todos ficavam embasbacados. Mas, bastava atravessar a Rua Direita para que o discurso se metamorfoseasse: Na venda de secos e molhados de seu Isidoro, ele era outro e desancava: — O prefeito? Um vaidoso. O padre? Ingênuo. O juiz? Teórico de gabinete. Eram farinha do mesmo saco... 
E assim, Anselmo sobrevivia — não por talento, mas por elasticidade moral. Certo dia, porém, a cidade decidiu homenagear seus “cidadãos exemplares”. O nome de Anselmo surgiu por insistência dele mesmo, claro, que sugerira discretamente sua própria indicação a cada membro da comissão. Era só blá blá blá, ao pé do ouvido. Um drinque também ajudava.
A cerimônia foi marcada para a praça central. Era 9 de abril, de 19***, dia de sol ofuscante. O coreto, na Praça Brasil, estava todo enfeitado, a banda afinada, tocava um dobrado. O Prefeito discursou, o padre W*** abençoou, o juiz assentiu gravemente, enquanto ajustava a gravata borboleta. 
Chamaram Anselmo ao proscênio ou palco. Ele subiu leve, sorridente, serelepe, pronto para a metamorfose final — a do homem virtuoso, de bem, caráter sem jaça..., mas então ocorreu o improvável. O jovem tipógrafo da cidade, cansado das intrigas que Anselmo espalhara, distribuiu panfletos contendo frases do homenageado — cada uma dita em ambiente diverso, cada qual contradizendo a outra. Ali estavam, lado a lado, suas palavras sobre o prefeito, o padre, o juiz. Todas elas verdadeiras, ou melhor: todas procedentes, ditas repetidas vezes pelo boquirroto. O murmúrio cresceu como enxame. O vexame em andamento. 
Anselmo tentou falar. Abotoou o paletó e sorriu. Citou Melanchthon estropiado: “A ignorância é a noite da alma.” — Ninguém quis ouvi-lo. — O padre fitava o chão. Anselmo evocou o princípio fundamental de Direito: Unicuique suum. [A cada um o seu]. — O juiz pigarreava constrangido. 
Foi a primeira vez que Anselmo não encontrou espelho onde se refletir. Ele desceu do coreto sob aplausos protocolares, que soavam como chuva em telha velha: muito barulho, nenhuma acolhida. Ouviram-se algumas discretas vaias. 
Naquela noite, ele, sozinho em casa, olhou-se no espelho e, pela primeira vez, não soube que personagem vestir: não havia máscara adequada. Descobriu, tardiamente, que o sicofanta é um ator que desaprende o próprio rosto: mente, tergiversa e não se envergonha. Vive em outro plano psíquico.
Na manhã seguinte, a cidade já tinha outro assunto. Sempre há. Anselmo era página virada e não voltou à Rua Direita com a mesma leveza. Caminhava como quem carrega um peso invisível — uma fantasma de si mesmo, em praça pública: um homem curvado e sem máscara... 
E desde então, alguns juravam que Anselmo tentou reabilitar-se. Falava menos, escutava mais, ensaiava uma sobriedade quase penitente. Mas havia no gesto contido algo de cálculo, como se até o silêncio fosse estratégia. A cidade, calejada, já não lhe concedia o benefício da dúvida. Aprendera que a palavra do sicofanta era moeda falsa: podia brilhar ao sol, mas não resistia ao tilintar da verdade. 
Quando alguém elogiava outrem em excesso, o povo sussurrava: — Cuidado! Pode ser da escola de Anselmo Bragança. 
Melissa Abelha Flores rompeu o noivado, dizendo-lhe não gostar de zangão de ferino ferrão. 
O sicofanta, quando desmascarado, não perde apenas a reputação — perde o álibi da própria consciência. 
E assim, na velha São Sebastião do Alto das Lages, Anselmo Bragança permaneceu vivo, mas reduzido à própria sombra, aprendera tarde demais que quem faz da palavra instrumento de lisonja termina prisioneiro do próprio eco — e que a pior solidão não é a de ser desmentido em praça pública, mas a de já não saber diante do espelho, qual face realmente é a sua. 
A pessoa não muda é a máscara que cai.

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