O SICOFANTA
O SICOFANTA
Anselmo não discordava de ninguém; discordava apenas dos ausentes e criava eventos impossíveis. Era homem do tititi.
Na presença do prefeito, citava trechos de O Príncipe, de Maquiavel, como se fossem motos e anexins da avó:
— Governar é uma arte para poucos, excelência! — dizia, inclinando o corpo num ângulo que beirava o impossível. Ele um puxa-saco inveterado.
Diante do padre, tornava-se místico, quase um personagem de Os Irmãos Karamazov, com olhos marejados e voz contrita: — A alma humana é um abismo. Só a graça nos sustenta.
Já na mesa do juiz, citava Ulpiano e Papiniano com uma desenvoltura que
faria enrubescer qualquer bacharel: — Honeste vivere, neminem laedere suum cuique tribuere. [Viver honestamente, a ninguém ofender e dar a cada um o seu] — murmurava, como quem recita um salmo.
Mas bastava atravessar a Rua Direita para que o discurso se metamorfoseasse. Na venda de seu Isidoro, Anselmo era outro e desancava:
— O prefeito? Um vaidoso. O padre? Ingênuo. O juiz? Um teórico de gabinete. Eram da turma: Farinha pouco meu pirão primeiro...
E assim, Anselmo sobrevivia — não por talento, mas por elasticidade moral.
Certo dia, porém, a cidade decidiu homenagear seus “cidadãos exemplares”. O nome de Anselmo surgiu por insistência dele mesmo, claro, que sugerira discretamente sua própria indicação a cada membro da comissão. Era só blábláblá, ao pé do ouvido. Um drinque também ajudava.
A cerimônia foi marcada para a praça central. Era 9 de abril, de 19***, dia de luz ofuscante. O coreto da Praça Brasil, todo enfeitado, a banda afinada. O Prefeito discursou, o padre W*** abençoou, o juiz assentiu gravemente.
Chamaram Anselmo ao proscênio ou palco. Ele subiu leve, sorridente, serelepe, pronto para a metamorfose final — a do homem virtuoso, de bem, caráter sem jaça... Mas então ocorreu o improvável.
O jovem tipógrafo da cidade, cansado das intrigas que Anselmo espalhara, distribuiu panfletos contendo frases do homenageado — cada uma dita em ambiente diverso, cada qual contradizendo a outra. Ali estavam, lado a lado, suas palavras sobre o prefeito, o padre, o juiz. Todas incompatíveis. Todas verdadeiras. Ou melhor: todas procedentes e douradas pelo boquirroto.
O murmúrio cresceu como enxame. O vexame em andamento.
Anselmo tentou falar. Ajustou o paletó e sorriu. Citou Melanchthon estropiado: “A ignorância é a noite da alma.” — mas ninguém quis ouvir. — O padre fitava o chão. Ele evocou o Direito Romano: Unicuique suum. [A cada um o seu]. — O juiz limpava os óculos, constrangido.
Foi a primeira vez que Anselmo não encontrou espelho onde se refletir.
Ele desceu do coreto sob aplausos protocolares, que soavam como chuva em telha velha: muito barulho, nenhuma acolhida. Soaram algumas discretas vaias.
Naquela noite, ele, sozinho em casa, olhou-se no espelho e, pela primeira vez, não soube que personagem vestir: não havia máscara adequada.
Descobriu, tardiamente, que o sicofanta é um ator que desaprende o próprio rosto: mente, tergiversa e não se envergonha. Vive em outro plano psíquico.
Na manhã seguinte, a cidade já tinha outro assunto. Sempre há. Anselmo era página virada e não voltou à Rua Direita com a mesma leveza. Caminhava como quem carrega um peso invisível — o retrato de si mesmo, revelado em praça pública. Um homem curvado e sem máscara...
E desde então, alguns juravam que Anselmo tentou reabilitar-se. Falava menos, escutava mais, ensaiava uma sobriedade quase penitente. Mas havia no gesto contido algo de cálculo, como se até o silêncio fosse estratégia. A cidade, calejada, já não lhe concedia o benefício da dúvida. Aprendera, à sua custa, que a palavra do sicofanta é moeda falsa: pode brilhar ao sol, mas não resiste ao tilintar da verdade. Quando alguém elogiava outrem em excesso, o povo sussurrava: — Cuidado! Pode ser da escola de Anselmo Bragança.
Porque o sicofanta, quando desmascarado, não perde apenas a reputação — perde o álibi da própria consciência.

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