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O CERCO DOS REMÉDIOS

 O CERCO DOS REMÉDIOS

Asséde Paiva



Naquele tempo, (tempo do onça), doença não chegava sozinha. Vinha acompanhada de medo, rezas, palpites e uma procissão inteira de remédios caseiros.

Catapora vinha pipocando igual milho na panela. Caxumba chegava inchando pescoço de menino. Coqueluche fazia a noite inteira tossir. Sarampo punha fogo no corpo. Terçol fazia o olho virar brasa. E dor de barriga então? Essa aparecia sem pedir licença, dobrando cristão em dois. Havia vento virado, nó nas tripas, morfeia etc. Mas o povo antigo não se entregava fácil, na verdade, morriam aos montes, talvez 50%.

Bastava alguém espirrar e já começava a invasão das mezinhas.

Primeiro entrava o chá de funcho, fumegando dentro de caneca esmaltada, com pose de general da banda:

— Deixa comigo essa barriga inchada e solta!

Atrás dele vinha a folha de laranjeira, calma, cheirosa, parecendo benzedeira:

— O que o nervoso fez, eu desfaço...

A canela e cravo chegavam se achando importantes: — Esquenta o sangue! Expulsa friagem! Bota esse menino pra suar!

E o assa-peixe? Ah, o assa-peixe vinha tossindo junto com o doente:

— Cof! Cof! Essa coqueluche não aguenta comigo!

Lá em casa, doença nunca encontrava vida mansa ou sossego. Quando ela pensava que tinha vencido, aparecia um remédio novo, desses ensinados pelas avós, pelas parteiras/comadres, pelos pretos velhos, pelos roceiros, ou tropeiros.

Minha mãe parecia comandante de quartel medicinal.

Mandava ferver picão para limpar o sangue. Preparava mané-turé amassado no pilão. Pingava óleo santo em algodão. Fazia chá de tudo quanto era folha que Deus deixou nascer no mundo.

Às vezes, a cozinha parecia mais farmácia encantada do que cozinha de pobre.

À noite, então, o cenário ganhava feição de laboratório de feiticeiro antigo. A chama do lampião tremia nas paredes, as sombras das panelas dançavam no fogão de lenha e os cheiros se misturavam: hortelã, alho queimado, cânfora, álcool, fumaça e sabão. O doente, enrolado em cobertor grosso, suando igual tampa de chaleira, olhava aquilo tudo e já não sabia se estava sendo tratado ou preparado para virar santo.

No fogão de lenha, onde o fogo e brasa nunca apagavam, ferviam panelas misteriosas com funcho, hortelã, erva-cidreira, poejo, sabugueiro, alfavaca, mastruz com leite, casca de romã, alho socado, folha de goiabeira, carobinha amarga de arrepiar defunto.

E os remédios conversavam entre si:

O picão vivia implicando com o óleo de rícino: 

— Você exagera! Ele vai evacuar as tripas.

— E você é fraco! — respondia rícino. — Quero ver verme resistir a 

mim!

O óleo de rícino era temido na redondeza. Só de ouvir o nome, o doente já melhorava. Rícino era nauseante, ele vinha em caneca esmaltada brilhando desgraça.

— Abre a boca! — ordenava a curandeira.

A pessoa abria, já chorando e segurando uma chave para evitar vômito.

Havia os especialistas em susto medicinal. Bastava a criança reclamar demais e logo aparecia um adulto com ameaça terapêutica:

— Se não melhorar, vou chamar dona Ritinha pra benzer com arruda e pimenta!

O menino, diante de tal ameaça, sarava metade, só de medo da reza

forte.

Os loucos ou portadores de alguma deficiência mental, em geral, eram hospedados no hospício, em Barbacena. Os menos dementes ou senis considerados caducos. vagavam pela casa ou eram trancafiados em quartos.

Havia receitas tão estranhas que até a doença se confundia:

chá de teia de aranha para estancar sangue, gordura de galinha no peito para bronquite, sebo de carneiro para reumatismo, dente de alho pendurado no pescoço contra gripe e um saquinho de cânfora escondido debaixo do travesseiro para espantar maleita. Amuletos como bentinhos, figas e a Mão de Fátima eram vistos como reforços invisíveis contra males do corpo, inveja, quebranto, azar e até doenças “mandadas”. Funcionavam como uma espécie de proteção espiritual adicional — um “cercado” simbólico ao redor da pessoa.

Depois vinha o “cristeli” para lavagem intestinal.

Era uma calamidade doméstica.

Ninguém escapava da lavagem intestinal, caso o purgante não funcionasse. As tias concluíam: 

— Isso é intestino carregado/preso!

A casa inteira entrava em estado de guerra, a porta era fechada, idem a janela e todas as frestas eram recheadas de pano, para não entrar ar fresco. O doente pedia água e recebia uma caneca de água morna... A regra era o doente piorar com o tratamento.

Esquentava-se água. Separava-se bacia, cortava-se o sabão, separava--se a toalha. Às vezes estranhamente, funcionava, às vezes não.

Naquele tempo, fé e remédios caseiros curavam juntos.

A benzedura era outro remédio fortíssimo. Talvez o mais forte de todos. Havia dona Ritinha Benzedeira, mulher magrinha, que enfrentava cobreiro, quebranto, espinhela caída, mau-olhado, vento virado e até tristeza funda. Ela benzia com ramo verde  e voz trêmula quase sussurrada:  

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...

A doença parecia escutar.

Tinha menino que chegava mole, febril, chorando sem parar, e saía correndo atrás de galinha no terreiro. O povo dizia:

— Foi a reza.

Para espinhela caída ou dores difusas:

“O que eu coso não é carne,
não é nervo, nem tutano.
Eu coso a espinhela caída
em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo.”

Os mais estudados riam daquilo. Diziam ser bobagem, atraso, superstição.

Havia ciência escondida naquela ignorância antiga.

O povo observava a vida. Reparava nas plantas. Decorava os efeitos. Passava ensinamentos de geração em geração. Errava algumas vezes, acertava muitas. E sobretudo: cuidava do doente com presença e amor.

Se nada dava certo, apelavam para a Homeopatia, e tome allium sativa, noz vômica, pulsatila, beladona, acônito etc.

Hoje vige a Alopatia: o comprimido chega dentro de caixinha bonita, cheio de nome difícil:

Azitromicina, Garamicina, Dipirona, Ibuprofeno, Loratadina.

Naquele tempo, não.

O remédio tinha rosto, cheiro, história.

A folha vinha do quintal.

O chá era mexido pela avó.

A reza saía da boca de preta velha.

Até a doença parecia menos solitária.

Lembro-me de uma epidemia de varicela que invadiu a rua inteira. Pipocavam bolinhas vermelhas iguais céus de São João.

Então começava o contra-ataque:

Banho de erva, Chá de funcho, Folha de mamão, Canja de galinha, Cachaça queimada, Cataplasmo, Reza forte, Proibição de manga com leite. Muito repouso e... 

Cristéis para todos.

As vizinhas trocavam receitas por cima das cercas:

— Passa maizena!

— Dá chá de picão!

— Banha de galinha preta é tiro e queda!

–– Calomelano!

E assim o povo ia sobrevivendo.

A varíola metia medo; A bouba deformava as virilhas das gentes. Sarampo matava.  Coqueluche fazia criança perder o fôlego e morrer

se combinada com crupe.

Mesmo assim, aquele batalhão de remédios artesanais resistia bravamente, como soldados pobres defendendo um reino miserável.

Às vezes venciam, às vezes não.

Porque a morte também morava perto e queria o seu quinhão.

Mas ninguém desistia de lutar. A vida era preciosa.

Hoje, as farmácias enormes, iluminadas, cheias de caixas coloridas e propagandas de televisão, espantaram a velha cozinha esfumaçada, as benzedeiras, os ensalmos, mezinhas e quejandos. Os remédios dos velhos tempos: amargos, fumegantes, nauseantes, pareciam invasores. mas invasores do bem.

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