Destaques

FESTA NO ARRAIAL DE PAULA LIMA

 FESTA NO ARRAIAL DE PAULA LIMA


Asséde Paiva


QUANDO o sino da igrejinha bateu três vezes, o arraial já fervilhava de gente. Bandeirinhas coloridas riscavam o céu em fileiras alegres, dançando com o vento manso do entardecer. O cheiro de milho cozido, canjica e pão doce escapava das barraquinhas, misturando-se com o perfume simples da terra batida.

Ti Tão (tio Sebastião), o sacristão, serelepe ia um lado para o outro ajeitando tudo, enquanto a banda de música afinava os instrumentos sob magnífica mangueira antiga. Trompetes ensaiavam notas indecisas, o bumbo respondia grave, e o clarinete parecia rir sozinho. O tarol do Dé ensaiava as batidas do Dobrado.

— Hoje vai ser bonito! — disse dona Maricotinha, ajeitando o lenço na cabeça, com olhos brilhando mais que lamparina nova.

O pároco chegou pouco depois. Padre Nelson estava sorridente, alisando a batina, cumprimentando um por um, como quem abraça o próprio povo. A missa começou com devoção sincera: rezas cantadas, vozes humildes, olhos fechados em gratidão. Ora pro nobis... Havia no ar uma alegria contida, como se todos soubessem que, ao final, a fé daria lugar à festa — sem perder o sagrado, apenas mudando de ritmo. Per omnia seculum seculorum.

E mudou.

Mal o padre Nelson deu a bênção final: Ide em paz...  foguetes espoucaram no céu:  — Tchááá!... bum! Tem sinos na igreja, / tem luzes no altar, / tem povo na rua, / tem fogo no ar! / Chis... pei! pou! pé!!

As crianças gritaram, os adultos riram, e a noite começou a se acender.

A banda Euterpe de Santa Cecília atacou um dobrado animado, e logo o salão de seu Nenzinho encheu-se de pares esvoaçantes. Casais se formavam com naturalidade: mãos tímidas encontrando outras mãos, pés marcando o compasso. Vestidos rodopiavam, chapéus inclinavam-se com galanteria. Osvaldo, no acordeom, e seu filho “Japonês” tocavam o bolero Dos Almas. 

Zé Pequeno, que nunca tinha tido coragem de dançar, foi puxado pela mão

por uma menina catita, Filomena: 

— Hoje tu não escapas! disse ela.

E lá foi ele, desajeitado, mas feliz como nunca. Cada passo errado era motivo de riso, cada acerto, uma vitória silenciosa.

Na barraca do quentão, histórias antigas eram contadas como se tivessem acontecido naquela mesma tarde. Na pescaria, prêmios simples viravam tesouros nas mãos das crianças. E no céu, os fogos continuavam seu espetáculo — cores explodindo como flores instantâneas, aplausos subindo da multidão.

Perto da meia-noite, a banda suavizou o ritmo. Um samba-canção começou, desses que fazem o tempo caminhar mais devagar. Os casais se aproximaram, o burburinho virou murmúrio, e o mundo pareceu caber naquele instante.

O pároco, sentado discretamente num canto do salão, observava tudo com um sorriso sereno. Fé e alegria — pensava — não são contrárias; são irmãs que se dão as mãos.

Quando o último foguete estourou, já quase não havia pressa. As pessoas demoravam a ir embora, como quem tenta guardar a noite no bolso.

E alguém disse, baixinho, como conclusão inevitável:— Festa assim… só aqui mesmo. Parece que o céu desceu pra brincar com a gente. Somos o povo que diverte, sem malícia...

Naquela noite, ninguém saiu igual. Todos levaram consigo um pouco de luz — dessas que não se apagam com o vento.

A história não findou aqui. Ti Tão saíra do baile onde fora recusado na contradança várias vezes. Coitado!!!

Ele não era garboso, sua aparência deixava a desejar. Na verdade, era feio, mas, muito inteligente. Porém, as garotas não queriam conteúdo, preferiam o pacote bem apelativo, charmoso, cheiroso. Elas viam a embalagem, que vende o produto. Assim, Ti Tão era o excluído do pagode. Alguns pares estavam tão juntinhos que entre eles não passava uma agulha; outros, mantinham distância protocolar. Ti Tão não tinha a esmola de um olhar... sentiu-se sobrante no salão. Frustrado, triste, saíra do baile para “tomar ar” como se diz e, lucubrava tatibitate: “Vou-me embora daqui, serei como ave avoante, ninguém me quer”. Ele era um pássaro ferido.

Na rua, ao estrondear das bombas cabeça de negro, um vulto se aproximou: seus olhos não riam; brilhavam fundos e mansos, como lamparina acesa protegida do vento. Era Nilce, uma linda fazendeira, no esplendor juvenil.

— E tu achando que ninguém te quer… — disse ela, com doçura firme. — Eu só estava esperando o momento certo. Nem todo mundo gosta de barulho, de dançar, de fofocar, Ti Tão! Há quem prefere escutar o que vem de dentro.

Ele não respondeu de imediato. Sentiu, pela primeira vez naquela noite, que o mundo não era feito só de risos alheios, corpos colados e portas fechadas. Havia ali, diante dele, uma presença que o via — não a casca, mas o conteúdo. E isso lhe pareceu maior que todos os fogos que já haviam riscado o céu.

Lá dentro, o samba-canção seguia seu curso, mas para Ti Tão o tempo mudara de compasso. Ele estendeu a mão, hesitante, e Nilda a tomou com naturalidade, como quem sela um destino antigo. Voltaram ao salão; ele, não como quem retorna derrotado, mas como quem encontra seu lugar na dança da vida. E, naquela madrugada, em Paula Lima, sob o eco distante dos últimos acordes, o sacristão serelepe — outrora rejeitado — dançou sua primeira contradança verdadeira: não com passos perfeitos, mas com o coração inteiro. E assim, sem alarde, a festa continuou dentro dele, para sempre. Enquanto a música corria mansa e os passos ainda buscavam o compasso, Ti Tão sentiu que algo invisível se rearranjava dentro dele, como se o destino — silencioso e paciente — tivesse esperado exatamente aquela noite para lhe devolver o que o mundo lhe negara em pequenas recusas. Já não era o homem à margem do salão, vulto esquecido à porta da alegria alheia; era agora presença inteira, reconhecida, acolhida no olhar de Nilce como quem finalmente é chamado pelo nome certo. E, sob as luzes vacilantes e o eco longínquo dos fogos e bombas, compreendeu que certas almas não se encontram no alvoroço das primeiras danças, mas na pausa, no intervalo, no quase desistir — porque é ali, quando tudo parece perdido, que o amor chega sem pedir licença e transforma o resto da vida em uma festa que não se acaba.

A mosca azul o picara...

Ele encontrara o amor da sua vida. 

Ponto final.

Comentários

Postar um comentário

Mais lidas