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ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM

  ATÉ AS PEDRAS SE ENCONTRAM Asséde Paiva Recordar é viver Relembrando meu colega e amigo Tércio de Castro Rocha (um granberyense) Até as pedras... Diz o velho ditado que até as pedras se encontram. Amigos e amigas, o que vou relatar tem alguma similaridade com esse provérbio. Tenho em mãos uma fotografia do dia de casamento de Amélia e Riquito, em Paula Lima, nos idos 1948 (foto1). Aparecem nesta foto além de noivos e padrinhos, eu Asséde Paiva, então com 14 para 15 anos (I); meu irmão, ao lado (II); e em baixo, de branco, em posição de sentido, Tércio de Castro Rocha (III). Nossos caminhos (o meu e de Tércio) cruzaram-se diversas vezes e em outras foram paralelos; e, isto de certa forma, valida o ditado “Até as pedras...” Pois bem, em 1946 eu fiz o quarto ano primário no grupo escolar Antônio Carlos, em Mariano Procópio, em Juiz de fora. Nesta época, Tércio estava lá também. Não nos conhecíamos, mas nossos caminhos se cruzaram nas horas do recreio. Depois, fui fazer o quinto ano ...

À PROCURA DE MIM

 À PROCURA DE MIM

Asséde Paiva


Hoje, eu fui abduzido de mim. Meu nome é Ninguém.

Pela manhã, como faço todas as segundas-feiras, quando não chove, dirijo--me à Clínica Corações, para fazer minha fisioterapia. A ginástica correu muito bem, e eu até informei à minha fisioterapeuta que, nas noites de insônia, tinha o hábito de zangar comigo dizendo: “Não vou ficar louco, não vou ficar louco”. Parece-me que os deuses não gostaram de minha fala. Após quarenta minutos de exercícios, devidamente amparado por Gabi, sempre a me ajudar a descer ou a subir a íngreme escada. Ela despediu-se de mim com um “Vai com Deus!” E saí da Clínica, caminhando em retorno ao meu lar. Levava comigo um envelope, lacrado, destinado ao cordelista, V*** N***, residente em São Paulo, no bairro Santo Amaro; por onde, certa feita, as ondas da vida, em ressaca, me levaram e hospedei-me na Pensão da Dona Assunta. 

Ainda no trajeto, olhei para a casa do amigo Adair L***, sita na rua 2, (dois), no 65, para vê-lo, saber da sua saúde e bater um papo. Ontem, ele não estava bem. Fiz-lhe visita vapt-vupt e sinceramente, acho que ele subirá ao “segundo andar” para ver o Grande Espírito ou Tupã. Adair só mexia os lábios, voz nenhuma saia. Despedi-me e continuei minha caminhada até à passagem superior: entrada para a CSN. Ao me aproximar do Shopping, R*** ocorreu--me estranho pensamento: “Onde ficava o Correio?” Leitor e leitora, estou cansado de ir ao Correio... No momento, pensei em várias ruas e as descartei, porque o Correio ficava nelas, no passado, sim. Tive um relâmpago de pânico. Então, lembrei-me perfeitamente do lugar onde ele ficava atualmente: no prédio da C*B*S. Eu tivera um apagão de memória, total amnésia. Só dei por mim ao chegar em meu apartamento. De forma alguma, por mais que tentasse, não me recordava de ter entregue a carta ao Agente do Correio; enfim, a cabeça estava oca. Que se passou? Abdução total de mim, da minha personalidade, do Eu, de minha alma. Acho que, nonagenário, estou prestes a cair nas mãos do alemão Alzheimer, vade retro! Ele está batendo à minha porta. Não, não, não! Deus me proteja de tamanha aflição.

Isto foi escrito em meu primeiro dia de escuridão...

P.S.

Hoje, idos de março, ... me reencontrei...

Peguei, no bairro do Aterrado, o ônibus por meio do qual a Prefeitura nos transporta gratuitamente. O ônibus, frio como quê, só parou em frente ao antigo e abandonado Escritório Central da CSN. É o ponto final. Resolvi investigar o que acontecera. Assim, fui primeiro ao Shopping, pois nele havia comprado pães e, eventualmente, esquecera lá o envelope. Conversa vai, conversa vem, apresentaram-me ao fiscal, que me ouviu atento e se dirigiu comigo a uma escrivaninha de objetos esquecidos. Ele puxou a gaveta onde havia muita coisa, exceto meu envelope. Agradeci e decidi voltar à Agência do Correio. Perguntei a uma atendente, antigamente “postalista”, se se lembrava de mim. Brinquei dizendo-lhe que estava à procura de mim. A moça não se lembrava, mas apontou outra, de nome Daniela. Dani se recordava de mim perfeitamente. Confirmou que eu estivera lá no dia anterior e pagara R$4,80 para postar a carta. 

Que alívio, meu Deus! Ainda não estou doido. Hosanas!!!

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Que se passara? Eu era conhecido por ter memória excepcional. Podia lembrar-me de cada detalhe do dia a dia; desde o cheiro da primeira flor, até o sabor exato do café da manhã, e do cheiro do pão francês que comera. Minha mente sempre foi arquivo interminável e inexpugnável de lembranças. No entanto, naquela noite, o estranho fato acontecera. Eu acordara de um sonho perturbador, um pesadelo, com a sensação de que algo fundamental havia mudado dentro de mim. Meu cérebro, que antes era um cofre seguro de memórias, agora parecia permeado por uma névoa espessa, obscurecendo tudo. Nem do pesadelo me lembrava. Não dei importância... Afinal, todos nós obliteramos fatos de vez em quando, não é mesmo? Mas, logo percebi que estava errado, quando não consegui me lembrar o nome da calopsita, que tanto me amava.

Assustado, tentei agarrar-me nas minudências de minha vida, como se fossem fios escapando por entre meus dedos. Revisitei cada canto da mente, mas quanto mais tentava me lembrar, mais rápido as lembranças pareciam esvanecer. Em desespero, decidi buscar ajuda. Consultei sábios, curandeiros, médiuns, médicos e alquimistas, mas nenhum deles conseguiu resolver o apagão mental. Pelo contrário, cada tentativa de recuperação de lembranças, apenas conturbava meu cérebro. Com o passar dos dias, vi-me mergulhado em um mundo surreal de fragmentos de sonhos e vigílias. Nada fazia sentido para mim. Esqueci-me de meu nome, esqueci-me da cidade onde morava e, até mesmo, não reconheci minha imagem no espelho, parecia mascarado. A realidade diluía diante de meus olhos, deixando-me à deriva, em um oceano de nada. No caos da mente doentia, perturbada, encontrei serenidade. Na essência, as lembranças permaneciam intactas e poderiam ser recuperadas, talvez, por meio de transe hipnótico. Eu era um todo indivisível, mais do que memórias fragmentadas mais do que pedaços do passado, alinhavados numa colcha de retalhos. Libertei-me das amarras imaginárias e mergulhei, de cabeça, no novo eu. Descobri incontáveis possibilidades, onde cada dia era uma página, em branco, pronta para ser manuscrita. E assim, tornei-me um peregrino, um nômade, viajando de cidade em cidade, contando histórias que havia “esquecido”, inventado outras. Aprendi que o verdadeiro poder não está em lembrar; mas, sim, em deixar fluir. 

E enquanto o mundo continuar a girar, sorrio, sabendo que estou livre para criar minha lenda pessoal. 

Eu me reencontrei.

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