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VOGAIS AVOANTES

 VOGAIS  AVOANTES Asséde Paiva Scripta manent, verba volant. Os escritos permanecem, as palavras voam. Quem poderá definir o encanto de palavrear? Ó Atena, guie meus passos nesta prosa singular! A vogal pega o bloco de papel e escreve: * q** *c*nt*c*r** s* d*s*p*r*c^ss*m*s d* t*xt*? V*m*s p^r  *st*r*sc*s,  d*p**s r**p*r*c*r, h~* d* r*c*nh*c*r n*ss* v*l*r. Passou a nótula adiante, nem uma vogal pôde traduzir a frase. Elas estavam em rebelião, havia enorme agitação; contestavam o tratamento subalterno recebido das consoantes. Em mesa-redonda concluíram ser indispensáveis por natureza e iriam mostrar quão relevantes eram à luz do dicionário. Estavam certas de que superavam as consoantes.  A quebra o silêncio traduzindo o significado do parágrafo supra com todas as letras: O que aconteceria se desaparecêssemos do texto? Vamos pôr asteriscos, depois reaparecer, hão de reconhecer nosso valor.   A quer liderar o motim por ser a primeira no abcedário. –– Presi...

Dolly

 

Dolly



ELEGIA A UMA CALOPSITA


Asséde Paiva











Dolly

Eu te amava...

Você me amava...

Danadinha...

Você nos pregou uma dolorosa peça...

Por que nos deixou?

Ainda ontem, eu fazia planos para você: pensava que quando viesse a nossa casa, lá pelo fim do ano, eu iria deitar na sala, para conversarmos bem baixinho, para que você subisse às minhas costas e começasse a se coçar, arrancando plumas.  

Mas você foi embora...

Nem me avisou.

Voou como um passarinho...

Ainda ontem, eu imaginava você aninhada na concha da minha mão, enquanto fazia cicios ao receber meus carinhos.

Sinhazinha, eu até penso que você me beijou...

Por que você foi embora?

Sabe que os nossos corações estão chorando de pesar.

Mas sinto que você era feliz com a gente.

Agora, você nos deixou e foi voar eternamente nos céus dos passarinhos.

Vai Dolly, vai para o céu, seja muito feliz com todos os pássaros que se foram e que ainda habitam nossos corações.

Vai para junto do Deus, que ama os pássaros... todos os pássaros.

Você nos deixou, nós jamais a esqueceremos: subindo em nossas pernas, bicando os botões de nossa camisa, dando voos rasantes pela cozinha, chamando-nos com piados estridentes, comendo seu alpiste.

Sentiremos sua presença nos acompanhando pelas repartições da casa.

Não nos esqueceremos dos seus banhos no pratinho, não nos esqueceremos das horas que almoçávamos e tomávamos café ao mesmo tempo.

Ainda sentimos seu descanso sobre nossos ombros, e, porque não dizer, até sentimos falta dos seus cocôs.

Dolly! Você é demais. Até quando ficava de cabeça para baixo na sua pousada.

Eu te amava, tu me amavas, todos nós te amávamos.

Se, no céu dos passarinhos, vires um pássaro-preto dê a ele um grande pio por mim... ele foi meu primeiro amigão da linhagem das aves.

Adeus, amiga! Estamos chorando por você. Nós veremos em céu estrelado...


Seus fãs: Asséde pai, Asséde filho, Cecy, Nina e Julia.

Sejamos como os pássaros que, ao pousarem um instante sobre ramos muito leves, sentem-nos ceder, mas cantam! Eles sabem que possuem asas.

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