Pular para o conteúdo principal

Destaques

O CERCO DOS REMÉDIOS

  O CERCO DOS REMÉDIOS Asséde Paiva Naquele tempo, (tempo do onça), doença não chegava sozinha. Vinha acompanhada de medo, rezas, palpites e uma procissão inteira de remédios caseiros. Catapora vinha pipocando igual milho na panela. Caxumba chegava inchando pescoço de menino. Coqueluche fazia a noite inteira tossir. Sarampo punha fogo no corpo. Terçol fazia o olho virar brasa. E dor de barriga então? Essa aparecia sem pedir licença, dobrando cristão em dois. Havia vento virado, nó nas tripas, morfeia etc. Mas o povo antigo não se entregava fácil, na verdade, morriam aos montes, talvez 50%. Bastava alguém espirrar e já começava a invasão das mezinhas. Primeiro entrava o chá de funcho, fumegando dentro de caneca esmaltada, com pose de general da banda: — Deixa comigo essa barriga inchada e solta! Atrás dele vinha a folha de laranjeira, calma, cheirosa, parecendo benzedeira: — O que o nervoso fez, eu desfaço... A canela e cravo chegavam se achando importantes: — Esquenta o sangue! Exp...

RITO DE PASSAGEM

 RITO DE PASSAGEM



PARTIDA E... CHEGADA


Quando observamos, da praia, um veleiro afastar-se da costa, navegando, mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara. O barco, impulsionado pela força os ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e imprecisa, onde o mar e o céu se encontram.

Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamara: “Já se foi! Terá sumido? Evaporado”?

Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha antes, quando estava perto de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas. O veleiro não evaporou, apenas não podemos mais vê-lo. Mas ele continua o mesmo; e talvez no exato momento em que alguém diz “Já se foi!”, haverá outras vozes mais além a afirmar:

“La vem o veleiro!”.

Assim é a morte.

Quando o veleiro parte levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos:

“Já se foi!”.

Terá sumido? Evaporado? Não, com certeza. Apenas o perdemos de vista.

O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino.

Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita. E é assim que no mesmo instante em que dizemos “Já foi!”, no além, outro alguém dirá: “Já está chegando!”.

A alma chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a sua vida. Neste momento [de transição], está em delicada fase de desprendimento do corpo material e de transformação da sua existência. Procuremos oferecer o que realmente a alma/espírito precisa agora: respeito a sua memória, orações, pensamentos carinhosos em favor da paz e amparo no mundo espiritual.

Os chamados mortos são apenas ausentes. Também eles pensam e lutam, sentem e choram. Não morreram: partiram antes.

As nossas preces de amor representam acordes de esperança e devotamento despertando os “idos(1)” para visões mais altas da vida.

Na vida, cada um leva a sua carga de vícios, virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva desfazer-se do que julgar desnecessário.

Morrer é apenas transportar-se. É rever amigos, encontrar inimigos, acertar contas, arrepender-se, aprisionar-se ou libertar-se.

A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas.

Assim, o que para uns parece ser partida, para outros é a chegada.

Um dia, todos nós partiremos como seres imortais que somos ao encontro D’AQUELE que nos criou.

Contemplemos os céus em que mundos inumeráveis nos falam da união sem adeus e ouvirás voz dos que nos antecederam no próprio coração, a dizer-nos que não caminharam na direção da noite, mas, sim, ao encontro de um novo despertar.

Não permitamos, assim, que a saudade se converta em motivo de angústia e opressão. Usemos os filtros da confiança e da fé, dulcificando-os com a compreensão de que as ligações afetivas não se encerram na sepultura. Somente o amor verdadeiro inspira ânimo e confiança alegria e esperança. O amor, essência da vida, estende-se, indestrutível, às moradas do infinito, fonte sublime que sustenta indelével, a comunhão entre a Terra e o Céu.

Os que se foram não morreram: estão do outro lado do caminho...

E para encerrar;
A morte não é nada,
Eu somente passei para o outro lado do caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês continuarei sendo.
Deem-me o nome que vocês sempre me deram.
Falem comigo o que vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo Criador.
Não utilizem um tom solene ou triste, continuem a rir daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim, rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado como sempre foi, sem ênfase de nenhum tipo, sem nenhum traço de sombra ou de tristeza.
A vida significa tudo que ela sempre significou.
O fio não foi cortado. Por que eu estaria fora de seus pensamentos, agora, que estou apenas fora de suas vidas?
Eu não estou longe, apenas do outro lado do caminho...
Vocês aí, que ficaram, sigam em frente!
A vida continuará linda e bela, como sempre foi.


Asséde Paiva

(adaptado do original de Flávio Nazareth Viana)

VR 23/3/2018

(1)Aqueles que foram chamados pelo Senhor,

Comentários

  1. Mortos, sem que sejamos chamados, nossa memória existirá em outra Brana (https://pt.wikipedia.org/wiki/Multiverso_(ci%C3%AAncia) até que o Universo se acabe no "Big Chill", se continuar se se expandindo ou em novo "Big Bang" se vier a se contrair (https://pt.wikipedia.org/wiki/Futuro_de_um_Universo_em_expans%C3%A3o). Nos livros sagrados se diz que fomos criados à imagem e semelhança de um deus; nas bíblias cristãs isto está no início do Gênesis.
    Mais uma "foma" (https://en.wikipedia.org/wiki/Cat%27s_Cradle) criada e transliterada, com diferentes versões ao correr dos séculos, todas escritas por homens que, criaram religiões com leis e regras que, através do medo criaram sua importância, poder e fortuna.
    Minha melhor hipótese é de que sim após a morte nossa memória continuará viva: https://medium.com/@blogflaviomusa/a-mem%C3%B3ria-cabe-no-c%C3%A9rebro-8ac8414ad2d6).
    Podem chamar os idos para a brana pelo nome, quem achar que rezar adiante, reze, os visitem em pensamento, os revisitem nas memória de deles têm.

    por

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Mais lidas