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FESTA NO ARRAIAL DE PAULA LIMA

 FESTA NO ARRAIAL DE PAULA LIMA Asséde Paiva QUANDO o sino da igrejinha bateu três vezes, o arraial já fervilhava de gente. Bandeirinhas coloridas riscavam o céu em fileiras alegres, dançando com o vento manso do entardecer. O cheiro de milho cozido, canjica e pão doce escapava das barraquinhas, misturando-se com o perfume simples da terra batida. Ti Tão (tio Sebastião), o sacristão, serelepe ia um lado para o outro ajeitando tudo, enquanto a banda de música afinava os instrumentos sob magnífica mangueira antiga. Trompetes ensaiavam notas indecisas, o bumbo respondia grave, e o clarinete parecia rir sozinho. O tarol do Dé ensaiava as batidas do Dobrado. — Hoje vai ser bonito! — disse dona Maricotinha, ajeitando o lenço na cabeça, com olhos brilhando mais que lamparina nova. O pároco chegou pouco depois. Padre Nelson estava sorridente, alisando a batina, cumprimentando um por um, como quem abraça o próprio povo. A missa começou com devoção sincera: rezas cantadas, vozes humildes, ol...

A Medalha

 A Medalha




Uma medalha nunca terá mais valor do que a história que antecedeu ela

(PatríciaCassol Eickhoff)


Estávamos em 1953/54. A cidade de São Paulo era em festas: São Paulo quatrocentão: São Paulo da garoa / São Paulo terra boa


EU PERAMBULAVA pelas ruas. Estava procurando meu lugar ao sol. Desempregado há meses, na cidade grande. Era março completaria meus dezoito anos... ah, juventude! Pois bem, leitor e leitora, esse que vos escreve, transitava no Vale do Anhangabaú. A fome comprimia meu estômago. Passei perto de um vendedor de churrasco grego e fiquei olhando, olhando, com a boca cheia d’água, mas havia que poupar o minguado dinheirinho. Ao lado do churrasqueiro, estava uma pastelaria, decidi comer um pastel recheado com um ovo, o pastel era mais barato do que o churrasco. Ao receber o troco, uma moeda escorregou-me entre os dedos e caiu num monte jornais velhos. Abaixei para apanhá-la, para mim um tostão(1) era muito dinheiro. Quando removi os jornais vi uma medalha brilhante, apanhei-a junto com meu troco, escondendo-a do pasteleiro. Pensei: “Tô feito”, se esta medalha for de ouro. E continuei minha deambulação, passando debaixo do Viaduto do Chá, em direção a um comprador de ouro. Logo li a placa: “Compro ouro e prata, pago bem”. Entrei no prédio, subi dois andares e estava diante de um comprador com feições de judeu. Mostrei-lhe minha joia e ele a devolveu de imediato: “Está querendo me passar para trás? Isto não vale nem um tostão furado, é latão(2). Decepcionado, fui em direção â rua Barão de Itapetininga e por outras e outras até à Praça João Mendes, nela pegaria o bonde para Santo Amaro, onde pousava em reles Pensão, que sequer tinha nome. O cafofo era misto: dormitórios para cavalheiros e casa de tolerância. Casais entravam e saiam a todo momento, noite inteira. Uma sonolenta meretriz me convidou; declinei, pois não podia pagar o “serviço”. Escondia-me num quartinho minúsculo e dividia o teto com baratas e ratos. Que fazer? Havia que poupar.... Examinei atentamente a medalha, que apresentava estilhaços nas bordas. Era comemorativa ao Quarto Centenário da Cidade de São Paulo (1554-1954). “Bem que poderia ser de ouro”, pensei, “me renderia uns trocados”. Devo ter suspirado e deitei-me na enxerga. Dormi e sonhei que era muito rico, porque a medalha era mágica e me dera sorte grande: Acertara na Loteria Federal, com o número 12835 (primeiro prêmio: cobra na cabeça). Foi sonho mesmo, nem bilhete tinha; sequer um Gasparzinho (fração). No dia seguinte, sempre duro (sem dinheiro e, sem futuro), fui à procura de emprego e mais uma vez me decepcionei. Afinal, eu era, meramente, um datilógrafo de meia-tigela. À tarde, estava no mesmo Anhangabaú, e resolvi subir a escadaria do Viaduto do Chá e pedir emprego nos bares e lojas do prédio das Indústrias Matarazzo. Enquanto subia, ouvi um barulho, rufar de tambores, e repiniques. Não me dei conta de que era prelúdio do Carnaval e, uma escola de samba, em pré-estreia, descia as escadas, enquanto eu as subia, a passos largos. De repente, tomei safanão de um segurança da escola e fui violentamente de encontro o muro. Acho que fiquei grogue, pois vi as baianas passarem, saracoteando por mim e, algumas até rindo com escárnio, talvez pensassem que fosse um bêbado dormindo no degrau da escada. Logo que a escola desceu no Vale, levantei-me ainda bambo, senti que a medalha desparecera, pois não mais estava em minhas mãos, nem bolsos. Revirei algum lixo por perto, mas nada encontrei; na verdade, achei dez cruzeiros (Cr$10,00).  Terminei a escadaria e estava na Praça do Patriarca(3). Como sempre, falhei miseravelmente em pedir emprego. Caminhei, então, em direção ao Viaduto Santa Efigênia, pretendia atravessá-lo e ir comer no SAPS(4). Nesse restaurante, já decadente, comi arroz e feijão aguado, onde se via aqui e ali alguns caroços de feijão, nem lembro se tinha pão. Tempos difíceis, tempos heroicos... de fome e de frustração. 

Ao deixar o SAPS naquela tarde sombria, de estômago cheio e alma vazia, detive-me por instantes na porta do restaurante. A garoa começava a cair fina, e cada gota parecia martelar meu desânimo. Lembrei-me a canção: São Paulo terra boa/ São Paulo da garoa...Vi operários caminhando apressados, homens bem vestidos saindo dos escritórios, moças risonhas com sacolas de compras. Todos tinham um destino, uma rota, um propósito. Eu, certamente não. Apoiei-me num poste, sentindo novamente o peso sentimental da medalha perdida — não pelo valor, que nunca teve, mas porque ela representava, na minha imaginação a remota possibilidade de uma reviravolta, um recomeço. Ali, percebi o quanto a esperança humana pode se agarrar a um pedaço de latão como se fosse ouro puro.

Mais tarde, naquela mesma noite, ao voltar para a pensão sem nome, encontrei o velho porteiro — um português magro, sempre com cara de poucos amigos — sentado na soleira, tragando seu cigarro de palha, exalando horrível cheiro de macaia. Ele me olhou de cima a baixo, como quem avalia a derrota alheia, e resmungou: “Rapaz, nessa cidade a gente aprende rápido: ou cria coragem, ou cria calo”. Naquele momento, estranhamente, não me senti humilhado. As palavras do velho ecoaram dentro de mim como uma sentença e um estímulo ao mesmo tempo. Subi as escadas com a sensação de que, se São Paulo insistia em me derrubar, eu precisaria aprender a cair melhor — porque, cedo ou tarde, eu ainda descobriria um lugar onde a vida deixasse de me negar e começasse, finalmente, a me chamar pelo nome.

À procura de emprego, encontrei ciganas na rua. Uma delas me agarrou com aquelas mãos ossudas, agourentas e pediu: “Deixa ler a sua sorte!” Respondi: “Não tenho dinheiro!”  Ela insistiu: “Leio de graça, me dá um cigarro”. Eu dei-lhe o maço de Liberty curto, mata-rato, ela virou minha mão e leu na palma: “Vai vencer na vida, mas sofrerá muito e viverá muito, isto é claro na sua linha da vida”, enquanto na linha do amor: “Jesus! você é tão romântico e, uma morena o fará sofrer a vida toda. No fim, será feliz...”

Desprendi minha mão das garras da cigana e, fui adiante. Na rua Santa Efigênia, fui assaltado e perdi parte do parco dinheiro, só não fiquei “liso” porque dispersara níqueis em vários bolsos. E segui minha vida: nada consegui em São Paulo. Desisti da Cidade e ela de mim. Resolvi voltar para minha casa, em Minas, fracassado de ponta a ponta. 

No meio do caminho... regressando a Minas:

De madrugada, na plataforma do vagão do trem  vi uma cidade, plena de luzes cintilantes. Ocorreu-me a ideia de que naquela empresa deveria haver muitos empregos. Estava descascando uma laranja baía. Aconteceu o ponto fora da curva da minha vida: a descoberta da cidade de Volta Redonda, cujas luzes me fascinaram, fazendo com que, resoluto, saltasse do trem, para, na cidade que surgia e tentar novamente a sorte. Deu muito certo, pois, fui admitido na Companhia Siderúrgica Nacional, muito conhecida pela sigla CSN. Vivi minha redenção na cidade que pespontava. Fichei-me na CSN, onde trabalhei 34 (trinta e quatro) anos e ocupei cargos simples, até cargos na Alta Administração. Glória a Deus! Setenta anos depois, já aposentado, batia as pernas, em vadia caminhada pela cidade. Topei com um cigano, na barraca dos ambulantes, debaixo do viaduto Heitor Leite Franco. Conversa vai, conversa vem, o cigano, que vendia moedas. filmes K-7, e medalhas; ofereceu-me uma, estilhaçada, a qual adquiri imediatamente: Era a do Quarto Centenário da cidade de São Paulo. Ainda que não fosse a original, era semelhante. Assim, reconstituí os velhos tempos, de muita luta, na cidade dos bandeirantes. E Deus leu o que eu escrevi por cima do meu ombro. (Knut Hamsun). Coisas inexplicáveis acontecem... Meninos, eu vivi!


Estilhaços de Esperança  (ChatGpt)

Em São Paulo, a fome me perseguia, / Um tostão, uma medalha, a utopia. / Nas ruas, um sonho, um brilho dourado, / A vida me mostrava me punha de lado.

A cigana, com seus dedos nervosos, / Leria meu futuro, em nuvens nebulosas / e via claro as linhas da sore / espelhada em mãos laboriosas.

Do Anhangabaú ao Viaduto do Chá, / A medalha, um amuleto, crachá. / Em Volta Redonda, a sorte me deu, / Em meio ao aço, a fé renasceu.

A medalha, um símbolo, do tempo passado, / Um lembrete no adereço / Em cada estilhaço, o recomeço, / A esperança me move, sem preço. 

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1. Moeda de 100 réis.
2. Liga metálica composta por cobre e zinco.
3. No dia 22 de abril de 1922, o Presidente da Câmara Municipal Raymundo Duprat assina a Lei nº 2475 que denomina Praça do Patriarcha José Bonifácio a praça fronteira ao Viaduto do Chá, entre as Ruas São Bento, Direita e Líbero Badaró.
4. O Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS) era uma autarquia que fornecia refeições a preços acessíveis aos trabalhadores. O SAPS foi criado em 1940, durante o governo de Getúlio Vargas, e extinto em 1967. 

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